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Trabalhar para ser pobre.

Na passada quarta-feira (13/1/2010), muito contrariamente aos meus hábitos, liguei a televisão às 9 horas da noite especialmente para visionar o programa da RTP 1 de nome Linha da Frente, que tinha anunciada uma reportagem intitulada “Empregado Precisa-se” feita por um tal de Jorge Almeida. (o vídeo não tem linque próprio, só a página do programa)

A falsa reportagem é conduzida de modo a apresentar o desempregado português como um preguiçoso espertalhão que não quer trabalhar e prefere receber o subsídio de desemprego sem fazer nada. São ouvidos, somente, alguns presumíveis beneméritos empregadores e alguns empregados (deles, suponho) que fazem as mais graves acusações sem haver qualquer tipo de contraditório, pois não é entrevistado nenhum, NENHUM, desempregado – o que é no mínimo espantoso numa reportagem sobre o desemprego.

Tudo indicia que se trata de um favorzinho do tal Jorge Almeida ao governo, uma ajudinha para justificar mais cortes nos benefícios sociais de quem se vê na terrível situação de desempregado.

Mas, ainda assim, vamos supor que no meio de tão mal-intencionada peça existe uma ponta de verdade e que alguns desempregados relutam mesmo em trabalhar. A pergunta a fazer por um jornalista isento e honesto seria: Porquê?

A resposta está, provavelmente, no estudo da Eurofound – Europeian Foundation (Fundação europeia para a melhoria das condições de vida e de trabalho) intitulado Working poor in Europe (Trabalhadores pobres na Europa): (documento em pdf, aprox. 360 Kb, descarregue a partir desta página)

(desculpem, mas não tenho tempo para traduzir – sendo, no entanto, o inglês relativamente simples, a tradução automática pelo Google Translate é bastante compreensível)

(Summary) According to official statistics, the risk of being working poor is higher in the southern EU countries – Greece, Italy, Portugal and Spain – as well as in some NMS including Poland and the Baltic countries. … Being employed part time or for less than a year almost doubles the in-work poverty risk; having a temporary employment contract raises this risk nearly threefold. …
With the exception of six countries – Bulgaria, Cyprus, Germany, Ireland, Norway and the UK – the issue of the working poor is not seen as a government policy priority in most EU Member States. …
In most Member States, the social partners, particularly the trade unions, do not explicitly discuss the issue of the working poor but rather poverty and its social implications in general. In terms of pay, the trade unions focus primarily on the level of minimum wages and collective bargaining. … Research is scarce on the effectiveness of minimum wages as a means to reduce the number of working poor. … Trade unions made concessions such as wage freezes in a number of countries. Employer organisations for their part propose measures to enhance employability and increase the number of temporary and part-time jobs, or tax measures to improve the income situation of low-paid workers.
… there is a general feeling that the working poor have been hit particularly hard by the current recession. Firstly, the increase in unemployment has affected low-skilled, temporary workers the most – which would however reduce the number of working poor. Secondly, due to this rise in unemployment, the male breadwinner model will be difficult to maintain, thereby increasing the number of working poor.
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Nota: Como já terão reparado o blogue não carrega imagens. Não se trata de um problema deste blogue, mas do próprio fornecedor do serviço, a Nireblog, o qual não deu até ao momento qualquer explicação sobre esta situação (nem respondeu ao e-mail que entretanto já enviei).

Nota 2 (às 19:15): O problema com as imagens parece estar resolvido, mas a Nireblog ainda não deu quaisquer explicações sobre o sucedido.

A lição de Sócrates*

Escola salazarista

Hoje o “grande líder” socialista “dedicou a manhã a escolas da Região Norte”.

Às tantas, na escola António Sérgio em Vila Nova de Gaia, botou faladura, e disse (conforme pode ouvir-se aqui):

(ao minuto 00:55) Nunca, nunca, nos últimos 100 anos foi feito tamanho investimento, tamanha concentração de investimento, nas escolas públicas portuguesas.

Como? Esta criatura não terá ouvido falar do Plano dos Centenários ordenado pelo seu histórico homólogo Salazar? Os problemas que se poderiam ter evitado para o país com a simples e popular mezinha da malagueta na língua na infância do mentiroso…

(aos minutos 01:05 e 01:14) No fundo trata-se de recuperar o tempo perdido. (…) No fundo trata-se de em poucos anos fazer todo o trabalho que está para fazer.

Ah! Cá está a explicação dos actuais problemas na Educação! É preciso recuperar o tempo perdido pelo primeiro ministro anterior, fazer rapidamente todo o trabalho que esse indivíduo se mostrou incapaz de fazer…

*Por analogia com “A lição de Salazar“, uma série de sete cartazes editados em 1938 e distribuídos por todas as escolas primárias do país.

As sondagens podem estar a enganar os portugueses?

A propósito da sondagem feita pela Eurosondagem, conforme publicada em notícia do jornal Expresso de hoje.

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Vêm de há muito as suspeitas sobre a seriedade e a isenção da empresa Eurosondagem.

24 Janeiro 2006
“Eurosondagens”
(dados aqui)
Muitas suspeitas se levantaram sobre a seriedade da empresa Eurosondagem nestas eleições presidênciais. De facto, as sondagens que esta empresa deitava cá para fora tinham o dom de não bater com nenhuma das outras. Tinham sempre uma particularidade, Soares estava sempre à frente de Alegre. Chegou mesmo a dar Soares com 20,4% e Alegre com 12,5% numa amostra aleatória de 2064 almas e a 22 de Dezembro ainda dava Soares com 22% e Alegre com 12% numa amostra aleatória de 1047 almas. …

(no blogue Tonibler)

Algumas destas suspeitas vieram mesmo de gente do partido socialista.

16-12-2005 – 17:42h
Alegre estranha «sintonia» entre Jorge Coelho e Eurosondagem
A candidatura de Manuel Alegre manifestou-se hoje preocupada com a isenção das sondagens da Eurosondagem e com a “sintonia” entre o responsável desta empresa, Rui Oliveira e Costa, também dirigente do PS, com o socialista Jorge Coelho.
Em comunicado, a candidatura de Manuel Alegre avisa que “a disputa eleitoral tem regras e a principal é a da decência” e, ainda, que “manda a decência que as sondagens sejam feitas com total isenção”. …

(no Portugal Diário)

 

As sondagens, e as análises estatísticas em geral, podem facilmente ser manipuladas e mesmo falseadas.

1. Como é possível manipular uma sondagem?

1.1. Qualificando de certa maneira os resultados obtidos. Pode usar-se como exemplo o próprio título da notícia do Expresso que veicula os resultados: Maioria absoluta do PS outra vez mais perto.

1.2. Escolhendo um momento em especial para fazer ou publicar essa sondagem. A mesma notícia do Expresso também fornece um bom exemplo para ilustrar esta situação: As ‘gaffes’ de Manuela Ferreira Leite e os salpicos do caso BPN contribuíram para esta quebra do partido liderante da oposição.

2. Como é possível falsear uma sondagem?

2.1. O método mais óbvio é falseando a amostra. Isto é particularmente simples de fazer  nos casos em que a consulta é telefónica e confidencial, isto é, em que se torna muito difícil saber quem respondeu de facto às questões da sondagem (veja-se a ficha técnica técnica da sondagem no final da notícia do Expresso que tem vindo a ser referida). Pode dar-se como exemplo o seguinte cenário possível: pede-se aos entrevistadores que escolham números de telefone de determinadas áreas onde foi mais significativa a votação num determinado partido, sabendo à partida que as probabilidades (cálculo de probabilidades também é Estatística) de encontrar um apoiante desse partido são muito grandes.

Nota: Podem, evidentemente, imaginar-se cenários muito mais graves de fraude na amostra. Basta usar a intuição, a constatação e… como faz o David Oliveira no seu Pleitos Apostilas e Comentários.

2.2. Contudo, mesmo sem falsear a amostra pode estruturar-se o questionário com vista a obter um determinado tipo de resposta final. Veja-se, usando como exemplo a própria ficha técnica desta sondagem publicada no Expresso, o tipo de questões e por que ordem foram colocadas: (a sondagem)Teve por objecto perguntas sobre avaliação de desempenho(1ª), conflitos na educação(2ª) e o “caso BPN”(3ª), além das intenções de voto(4ª)…

Limitação de responsabilidade: Em passo nenhum deste texto de análise do processo, estatisticamente baseado, de produção de uma sondagem está expressa qualquer acusação de fraude ou falseamento desta sondagem, ou de outras anteriores, pela empresa Eurosondagem. O autor do texto limita-se a usar os seus conhecimentos de Estatística Prática para descrever algumas das possibilidades de manipular ou falsear resultados neste tipo de processos. O autor deste blogue decidiu fazer aqui esta declaração, tendente a esclarecer quaisquer dúvidas sobre as suas intenções, por ter tido conhecimento de ameaças anteriores do senhor Rui Oliveira e Costa a quem questiona os resultados das sondagens da empresa que lidera.

O 4º poder ao serviço do 2º,

ou a comunicação social como máquina de propaganda do governo.

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Ontem, quarta feira dia 15 de Outubro de 2008, o jornal Correio da Manhã colocava na 1ª página o seguinte título: PORTUGAL DESAPERTA O CINTO

CM 15.10.08

No seu interior, o diário dedica 8 páginas ao Orçamento de Estado, não obstante não ter em seu poder o documento.

Já passava das 10 horas quando os grupos parlamentares tiveram acesso à versão completa da proposta do Orçamento de Estado para 2009… (Jornal de Notícias, Oposição só recebeu proposta de orçamento esta manhã, 15-10-2008)

 

CORRUPÇÃO: A IMPRENSA LIVRE É CENTRAL NO COMBATE. Por Aguiar-Conraria in Público, 10-10-2008

Apenas me dei conta da extensão do problema quando soube que Roberto Dell’Anno tem trabalhos publicados sobre o nosso país. Quanto até um professor de uma universidade do sul de Itália se aplica a investigar a corrupção em Portugal, podemos estar certos de que o problema atingiu dimensões consideráveis. (…)

Para sair desta armadilha, Aymo Brunetti e Beatrice Weder, prestigiados economistas suíços, elegem a imprensa livre como elemento central no combate à corrupção. Com uma imprensa descomprometida e competitiva, quanto mais generalizada a corrupção, maior o incentivo de um jornalista para investigar e denunciar.

Infelizmente, em Portugal, o quarto poder não conta. Incrédulo, tenho assistido à saga do meu irmão José Manuel de Aguiar, advogado de Coimbra, que, usando as suas prerrogativas de munícipe empenhado, tem vindo a denunciar situações de óbvia ilegalidade e de corrupção na sua cidade. No seu blogue, “Podium Scriptae”, e depois de apresentar queixa no ministério público, apresenta documentos, fotografias, indícios de falsificação de documentos oficiais. Enfim, um sem número de indícios óbvios de corrupção espera que as autoridades ou algum dos jornais locais, como o “Diário de Coimbra” ou o jornal “As Beiras”, pegue no assunto e investigue. No entanto, uma noite de silêncio abateu-se sobre as suas denúncias. Imagino que o mesmo se passe em outras cidades do país.

Há duas semanas apercebi-me da extensão do problema quando li que o director do jornal Público foi ameaçado pelo Primeiro-Ministro antes de denunciar as peculiaridades que envolviam a licenciatura de José Sócrates. Disse o chefe de governo: “Fiquei com uma boa relação com o seu accionista e vamos ver se isso não se altera.” Esta ameaça é temível porque, obviamente, as decisões de um governo valem fortunas e não há empresa que lhes possa escapar. Sabemos agora que os mais altos responsáveis políticos pressionam os media de formas indignas de um regime democrático. Se nada acontece quando o primeiro-ministro ameaça o director de um jornal, o que não se passará por esse país fora? Também ficámos a saber que na Câmara de Lisboa comprava cumplicidades oferecendo casas a artistas e jornalistas. Entre os envolvidos, encontramos o filho de um ex-Presidente da República, um ex-ministro, um ex-Primeiro-Ministro e um ex-Presidente da República. Naturalmente que, com jornalistas cúmplices, dificilmente há jornalismo de investigação. É pena, o país agradecia.