Tag Archives: professor

O holocausto dos professores.


O pior é sentir que nunca mais vou ser a mesma. Pode parecer exagero. Mas é mesmo assim: eu, que não tinha medo, não voltarei a sentir-me segura. Não apenas na escola, mas no país.

Chorei, horas, até já nem saber que chorava. E insisto: não foi só por causa do horário zero, daquele murro no estômago que é ler que não há alunos para nós. Foi também por sentir que algo em mim se quebrara, de forma irremediável.

Há duas semanas, o meu marido, que tem uma licenciatura e duas pós-graduações, era o trabalhador precário e eu a que tinha a situação estável, que nos permitiu ter uma filha, começar a pagar uma casa e fazer planos. Agora ele continua precário e eu sou ex-estável. É assustador.

(Adormeceram professores e acordaram sem turmas, por Graça Barbosa Ribeiro, com base em conversas com os entrevistados, em 23.07.2012 no Público)

Primeiro o sistema deitou fora os que (dizia um qualquer despacho, num dado momento sobre uma determinada licenciatura) não tinham habilitação própria,
e eles não disseram nada,
porque tinham habilitação própria.
Então o sistema deitou fora os que tinham habilitação própria mas não fizeram a profissionalização,
e eles não disseram nada,
porque eles tinham feito a profissionalização (e muitos até tinham “cursos de ensino”!).
Então o sistema deitou fora os que tinham feito a profissionalização mas não tinham vínculo,
e eles não disseram nada,
porque eles tinham vínculo.
Então agora o sistema deitou-os fora a eles,
e nesta altura repararam
(que como nunca falaram por ninguém)
já não havia ninguém para falar por eles.
(Baseado no poema E Não Sobrou Ninguém, 1937, da autoria do pastor Martin Niemöller)

Advertisements

O vespeiro*.

Em 13 de Junho passado o professor Paulo Guinote, autor do blogue A Educação do Meu Umbigo, dava notícia de ter sido processado judicialmente pelo articulista de causas (contra a malandragem docente) Paulo Chitas, por causa de um texto em que denuncia distorções de dados num artigo da autoria do dito Chitas na revista Visão.

Disso se fez eco aqui no Jardim, no próprio dia (tempos mais folgados…).

Passados pouco mais de 4 meses, no dia 24 deste mês de Outubro, o professor Paulo Guinote voltou a dar uma estranha notícia desse mesmo processo. Nela se fica a saber que, e transcrevo, “O Ministério Público acompanha a Acusação Particular, por entender que nos autos foram colhidos elementos suficientes quanto á [sic] prática pelo arguido Paulo Jorge Alves Guinote de um crime de Difamação agravada” e que “O Denunciante/Assistente apresenta cinco testemunhas (acrescentou duas à lista inicial), entre as quais uma anterior ministra da Educação”.

Tenho (para mim) como única explicação possível para tais enormidades a passagem a realidade da ficção de Jack Finney na obra The Body Snatchers. Ou isso, ou a teoria dos Vespiaries

*Definição no dicionário Priberam: 1. Ninho de vespas; conjunto de vespas.
2. Qualquer local em que repentinamente se deparam perigos, insídias, traições.
3. Conjunto de pessoas de má índole.

Uma das melhores descrições do ser professor que já encontrei.

Semear… Os professores são heróis anónimos, fazem um trabalho clandestino. Eles semeiam onde ninguém vê, nos bastidores da mente. Aqueles que colhem os frutos dessas sementes raramente se lembram da sua origem, do labor dos que a plantaram. Ser um mestre é exercer um dos mais dignos papéis intelectuais da sociedade, embora seja um dos menos reconhecidos. Os alunos que não conseguem avaliar a importância dos seus mestres na construção da inteligência nunca conseguirão ser mestres na sinuosa arte de viver.
A história de Cristo evidencia que os mestres são insubstituíveis numa educação profunda, numa educação que promove o desenvolvimento da inteligência multifocal, aberta e ampla, e não unifocal, fechada e restrita. …
.
CURY, Augusto J., Análise da inteligência de Cristo : o Mestre dos Mestres, Ed. Academia de Inteligência, S. Paulo, 1999.