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Coisas de outros tempos: agora, já não é nada assim…

O presidente do Conselho concentra nas suas mãos a maior fatia de poder. É quase a encarnação do regime. …E, enquanto o pai tirano de tudo cura, vive o povo brandamente neste pátio das cantigas. …

a vida quotidiana das classes baixas está pouco acima do nível de subsistência e no topo da pirâmide social, os lobies agrícola, industrial, do comércio e da banca partilham influências com as elites políticas…

O regime está consolidado e mostra serviço. … o ministro das obras públicas é incansável… mais realizações virão… mais obras virão ainda: bairros sociais, avenidas novas, um aeroporto internacional. …

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Agora, felizmente, vivemos num regime socialista muito avançado.
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A discussão(zinha) do TGV e a nova jogada ‘aeroportuária’ do (falso)engenheiro.

TGV derrailed/descarrilado“Well then”, says the Socrates of the Republic, “could we perhaps fabricate one of those very handy lies which indeed we mentioned just recently ? With the help of one single inspired white lie we may, if we are lucky, persuade even the rulers themselves – but at any rate the rest of the city”.

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Uma das coisas que qualquer mediano jogador de xadrez faz, quase sem pensar, é memorizar a posição das diversas peças numa determinada jogada do seu adversário que vem a revelar-se-lhe como muito incómoda – no sentido de lhe condicionar todos os seus movimentos a partir desse momento.
O que acontece neste momento com a discussão(zinha) do TGV* é um “já visto” (dejà vu) deste tipo.
O ministro das empreitadas públicas (mais dispensável que as toalhitas húmidas de limpeza dentro de uma casa-de-banho com água corrente e sabonete) vem à praça afirmar que a coisa se fará, infalivelmente. Este, por ser um bocadinho mais esperto que o Lino dos desertos, ou por não saber a gaulesa língua, conteve-se e já não disse que jamais (ler jamé) deixaria de se fazer.
O banqueiro (do regime) aperitivo Salgado logo veio dar o seu pomposo parecer, que não é conveniente fazer já a obra pública, que é preciso repensar e tal. Reparem que o interesse agora não é levar a grei a acreditar nas grandes vantagens de mudar o “aero-coiso” de sítio, tal como o Zel(er)oso CIPaio fez no caso OTArios, mas adiar sine die a construção do “ferro-coiso”.
Porquê? Porque o (quase)engenheiro já não lhe interessa nada fazer o TGV*. Mas… então porque não diz simplesmente isso e cala a boca a muitos críticos? Por causa dos interesses da sua imensa clientela política, of course! E estes, os das grandes obras públicas, são muito mais difíceis de sacudir (diria mesmo, muito mais perigosos) que os ambientalistas OTArios.
O (para)engenheiro está ansiosamente à procura da desculpa salvadora: não se pode fazer, pá, que é contra a vontade do povo, pá.
Bonecos Bloco CentralO que pensam vossemecês que foi fazer o Coelhito à toca do Zézito? Por favor, não me digam que acreditam que ele foi lá em defesa do interesse nacional. Eu pedi por favor… Ah! Foi lá por causa da crise, não é? Pois… Mas não da crise que estais a pensar. Foi lá por causa dos (à beira de) perdidos euro-milhões para a sua própria clientela política. Ah pois!
E o que pensam (os mesmos) vossemecês que vão os ex-ministros dos impostos cavaquear a casa do amigo Aníbal no final da semana? É que as tetas da porquinha chamada república estão a secar-se e os leitõzinhos mamões estão a ficar muito esfomeados.

Desafio, daqui deste minúsculo jardim quase a morrer de sede no meio de tanto deserto, o (meio)engenheiro a decidir seguir em frente com o tal TGV* . Mas já, sem mais delongas.

*Transporte para Grandes Vaidosos.

Limitação de responsabilidade: Qualquer analogia que alguém entenda fazer entre este texto ficcional e alguma realidade, presente, passada ou futura, será de sua inteira responsabilidade.

O TGV, a Mota Engil e a farsa dos concursos de obras públicas em Portugal.

O primeiro-ministro, José Sócrates, vai anunciar no sábado, em Évora, o vencedor do primeiro concurso do projecto de alta velocidade ferroviária (TGV Poceirão-Caia), marcando o arranque do projecto em Portugal.
Na corrida à construção deste troço, que faz parte da linha Lisboa-Madrid, estão os agrupamentos liderados pela Brisa e Soares da Costa, por um lado, e a Mota-Engil, por outro. …

Este agrupamento
[Brisa e Soares da Costa] integra também a Iridium Concesiones de Infraestructuras, do grupo espanhol ACS, Lena, Bento Pedroso, Edifer, Zagope, a norte-americana Babcock & Brown Limited, o BCP e a Caixa Geral de Depósitos (CGD). …
O agrupamento liderado pela Mota-Engil integra também a Somague, a Teixeira Duarte, a MSF, a Opway, a Esconcessões, a francesa Vinci, o BPI, o BES, o banco Invest
[1] e a Alves Ribeiro – Consultoria de Gestão. …
(José Sócrates anuncia sábado vencedor do primeiro concurso do TGV, 11/12/09, OJE/Lusa)

Ao contrário do que afirma a notícia, estou absolutamente convicto que na actual conjuntura política está já escolhida a Mota-Engil. Cá estaremos para verificar o acerto desta previsão. Alguém quer apostar (alguma coisa que valha a pena)?

 

Ajuste directo

 

É que ele há muitas formas de ajuste directo.

[1]Banco Invest emite 50 milhões com garantia do Estado

Pós texto (12 Dez. 09, 15:00): Como se pode verificar aqui, o grupo de trabalho unitário do famoso blogue Um Jardim no Deserto enganou-se na previsão. Ou talvez não… Começa a ficar claro porque se silenciou a oposição do PSD a este projecto: não resta qualquer dúvida que comem todos do mesmo tacho.
De qualquer modo, ainda bem que ninguém aceitou a aposta :).

 

Um cheiro a podridão no Terreiro do Paço

Será novamente o pântano ou uma enorme fossa séptica*?

corrupto

Num destes dias passei pela primeira vez, desde que o trânsito ali reabriu, num táxi, frente ao Terreiro do Paço, a caminho do Cais do Sodré. Nem queria acreditar no que estava a ver – um misto de desolação com uns bocados de plástico pacóvios pelo meio. A coisa é indescritível – no meio das obras há uma instalação, que se situa visualmente a meio caminho entre carrinhos de choque das feiras e contentores para recolha de recicláveis, com uns arbustos de árvores raquíticos a saírem lá de dentro – numa referência ecológica bacoca. (…)**

É verdadeiramente impressionante a expansão do ecologismo de pacotilha nos tempos mais recentes: um grupo de idiotas que pensam que ser ecologista é vestir roupas das lojas Natura Selection, atravessar uma ponte rodoviária a pé uma vez por ano e ir comer umas “sandochas” embrulhadas em celofane a um “Centro de Interpretação Ambiental”.

(…), o que está a ser feito na Ribeira das Naus e no Terreiro do Paço é um espelho do poder arbitrário, da falta de bom senso e, estou em crer, de uma grande dose de incompetência. Uma zona nobre da cidade de Lisboa está entregue a pinderiquices, a projectos de intervenção que causam polémica generalizada, tudo feito por obra e graça de uma Sociedade Frente do Tejo, criada pelo Governo perante a passividade de António Costa, e que, muito curiosamente, vai poder contratar empreitadas e adquirir bens e serviços por ajuste directo, sem concurso público, até 5.120 milhões de euros, um valor cinco vezes superior ao limite máximo previsto no Código dos Contratos Públicos. Não há um cheiro a podridão em tudo isto?**

Então não há? E, quando começar a destapar-se um bocadinho mais o que está por debaixo da laje do regime, então o fedor vai ser mesmo excruciante.

*Para ser mais coerente com o actual “estado de engenharia sanitária”.

**Um cheiro a podridão no Terreiro do Paço, Manuel Falcão, 23-06-2009, Meia-Hora.