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Fa(c)tos consumados não servem a ninguém.

porque sim, não é resposta!… gostaria de contar um episódio que protagonizei e do qual me lembro sempre que ouço alguns dizerem que não vale a pena discutir o acordo por ele ser irreversível. Já tenho anos suficientes para ter visto enterrar muitas coisas consideradas irreversíveis. Em 1984, estava eu no início da minha carreira jornalística, escrevi uma carta aberta a José Ramos-Horta que terminava assim: «Um dia hei-de abraçá-lo num Timor livre e independente.» O jornal onde eu trabalhava tinha uma linha editorial de apoio à integração de Timor na Indonésia precisamente por a considerar irreversível.
Afinal não era irreversível. E vinte anos depois dessa carta aberta, em 2004, pude abraçar de facto Ramos-Horta – já então galardoado com o Nobel da Paz e exercendo as funções de primeiro-ministro do seu país, num Timor livre e independente.
Os timorenses souberam resistir.
Nós devemos continuar a resistir também. Em nome daquilo em que acreditamos. Por isso dedico este livro à minha filha Joana, aqui presente. Porque nós, os mais velhos, somos fiéis depositários de valores culturais que temos o dever de legar às gerações futuras. E nenhum valor cultural é tão nobre e tão inestimável como a nossa língua.

O que torto nasce nunca se endireita
por Pedro Correia

Até o politicamente correcto* precisa de uma consoante muda.

Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico, Pedro Correia - livro, apresentação

* O que é o politicamente correcto?

A ilegalidade do AO90 começa no desrespeito pelas regras da acentuação em português.

Consulte-se uma qualquer gramática de Português actualizada sobre as regras de acentuação ortográfica e poderá ver-se aí que as palavras esdrúxulas ou proparoxítonas “acentuam-se sempre com acento agudo quando a vogal é aberta e com acento circunflexo quando a vogal é média”.

Pergunte-se então aos “indefetíveis” defensores do AO90 como é possível ler-se fátura onde está escrito “fatura”, adótado em “adotado”, afétivo em “afetivo”, afétuoso em “afetuoso”, bátista em “batista”, infécioso em “infecioso”, anticoncétivo em “anticoncetivo”, coátivo em “coativo”, colétivo em “coletivo”, concéção em “conceção”, confécionar em “confecionar”, espétador em “espetador”, desafétado em “desafetado”, desinfétante em “desinfetante”, detétive em “detetive”, efétivar em “efetivar”, frátura em “fratura”, indefétível em “indefetível”, infétado em “infetado”, inspécionar em “inspecionar”, intercétado em intercetado, introspétivo em “introspetivo”, invétivar em “invetivar”, lécionar em “lecionar”, létivo em “letivo”, objétivo em “objetivo”, pára-choques em “para-choques”, percétivo em “percetivo”, perspétiva em “perspetiva”, prospétivo em “prospetivo”, recétivo em “recetivo”, reflétivo em “refletivo”, respétivo em “respetivo”, retrospétiva em “retrospetiva”, vétorial em “vetorial”?*

AO90 - disparates

Como farão os professores de português para ensinar isto nas escolas? Darão aos alunos uma imensa lista de vocábulos que são excepção à regra gramatical? E ninguém pára isto? Ninguém desliga o “interrutor” (sim, parece mentira mas “interrutor” é o neovocábulo acordístico para interruptor) aos iluminados crâneos que inventaram esta monumental fraude linguística?

*E, há muitos mais exemplos para quem quiser dar-se ao trabalho de procurar aqui.

Não é por decreto que se internacionaliza uma língua.

É assim:

A Universidade de Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês) anunciaram esta semana uma nova parceria para um sistema educativo online gratuito e para todos. As duas entidades norte-americanas estão a lançar a edX, que pretende criar uma “comunidade global de estudantes online”.

(Harvard e MIT criam plataforma com cursos grátis, 04 de Maio de 2012, Boas Notícias)

E, juntamente com a língua, internacionalizam-se uma cultura e uma mundivisão.

Do mesmo modo, também não é por ser nomeado secretário de Estado que alguém se torna mais inteligente, pois não sr. Viegas?

A (última) Oportunidade para não vir a dar em doido com a escrita.

Por favor, leia com atenção o pequeno texto seguinte nas duas formulações apresentadas:

1. No tocante à corrução e aspectos conexos, perfilha-se a conceção de que somente após recepção de mais elementos informativos de fato e de direito se poderá adotar medidas com carácter permanente neste setor.

2. No tocante à corrupção e aspetos conexos, perfilha-se a concepção de que somente após a receção de mais elementos informativos de facto e de direito se poderá adotar medidas com caráter permanente neste sector.

Acha que a frase está correcta ou incorrectamente escrita segundo o novo Acordo Ortográfico? São quatro as hipóteses possíveis: a) A frase está incorrectamente escrita em 1 e 2; b) A frase está correctamente escrita em em 1 e incorrectamente em 2; c) A frase está correcta em 2 e incorrecta em 1; d) A frase está correctamente escrita em ambas as formulações.

Não sei que alínea escolheu, mas provavelmente não terá sido a d). Pois é essa exactamente a hipótese que está certa: – A frase está correctamente escrita em ambas as formulações pois as “palavras corrupção, aspecto, concepção, recepção, facto, carácter e sector contam-se entre aquelas cuja grafia, com c ou p, é facultativa, segundo a al. c) da Base IV do Acordo” (cf. aqui).

Isto é ou não é coisa de doidos? Pois esta loucura começou este ano a ser ensinada nas escolas deste país.

Pode ainda tentar evitar-se isto? Pode, mas esta é mesmo a (sua) última oportunidade. Basta ir ali acima ao logotipo que está na coluna lateral esquerda e clicar em “assinar” para descarregar um formulário bem pequenino (em pdf). Depois, é só imprimi-lo, preencher, meter dentro de um envelope e enviar pelo correio para o endereço que está indicado no próprio formulário. Se preferir, veja aqui o processo todo explicado de como fazer (até há outras hipóteses de envio do fomulário para quem não queira usar os CTT).

A Língua é sua, é nossa, é do povo, repito, É DO POVO, não dos idiotas que fizeram esta aberração a que chamaram depois Acordo Ortográfico… Aliás, acordo só se foi lá entre eles, porque aos portugueses nunca ninguém perguntou se estavam de acordo – com este, como com tantos outros “Acordos” feitos em seu nome.

DESTA VEZ O POVO PODE OPOR-SE. ENTÃO OPONHA-SE!

10 de Junho de 2011 – Antemanhã.

Tejo e mar ao longe
foto original de am.ma
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(penúltimo poema do livro Mensagem de Fernando Pessoa)
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O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia,
Do novo dia sem acabar;
E disse, «Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo,
Nem o Terceiro quere desvendar?»
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E o som na treva de elle rodar
Faz mau o somno, triste o sonhar.
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar,
Que veio aqui seu senhor chamar –
Chamar Aquelle que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.

Os portugueses ficaram definitivamente apátridas.

A minha Pátria é a língua portuguesaFernando Pessoa.

Madredeus ao vivo

Apesar disso e das 87.742 assinaturas com que já contava a petição Manifesto Em Defesa da Lingua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico, Cavaco Silva promulgou o Acordo Ortográfico.

Depois de venderem o mar e também a terra, a gente e também a Fé, finalmente venderam aquilo que pareceria impossível: a lusa Língua.

A História os julgará e o Povo, apesar de já lhe terem vendido também a soberania.

Novecentos anos de História não se apagam com decretos e traição, nem com subsídios e centros comerciais.

Nota aos meus amigos e leitores brasileiros, cabo-verdianos e outros lusófonos: Este acordo não é mau apenas para os portugueses. Toda a lusofonia perde com a perda da lusa referência. Toda a uniformização é empobrecedora. Uma Língua viva está sempre a divergir e a criar singularidades – doutra forma estará morta.