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Os PIGS a caminho de uma outra Economia.

De possível a plausível, de previsível a visível.

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Agora digam lá se este nosso mundo não se parece cada vez mais – como escreve Herberto Helder –  com uma Idade Média enfeitada de tecnologia?
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Nota: o vídeo foi topado aqui.

A caminho de uma nova crise financeira?

Neste postal aqui publicado em 24-10-2008, a fenomenal equipa unitária que autoria este blogue faz um (muito visual) diagnóstico da saúde e da (má) terapêutica dos mercados bolsistas à data, e deixa no final a pergunta: O que vai acontecer a seguir?

Passados três meses uma determinada resposta começa a apresentar um elevado grau de plausibilidade. Ei-la:Peter Schiff


In his efforts to prevent the next financial crisis, the President is focused on the symptoms rather than the disease. Therefore, his attempt to prevent future financial crises is doomed to failure, as the misguided policies that led to the last crisis are preserved while even more damaging policies are added. Current Fed policy is more reckless than before; continued subsidies to the mortgage market and the bailouts for banks are creating even bigger moral hazards; and, as a result, the economy is even more leveraged and more vulnerable to rising interest rates than ever.
The only way to prevent another financial crisis would be to reverse the fiscal and monetary policies that lead to the last crisis, and which now threaten to bring on an ever larger one.

(Peter Schiff: Obama’s bank plan is ‘doomed to failure’, January 21, 2010, Investment News) 

Pensem o que quiserem, mas o autor do artigo parcialmente transcrito acima tem fama de ser uma autoridade nas suas previsões, mesmo quando (ou especialmente quando) elas são muito inconvenientes.

A falsa solução da crise financeira na Europa,

ou a velha (e nunca aprendida) lição de que os problemas não se resolvem pela aparência, mas apenas agindo na essência.

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Regulators close 2 banks in Florida, 1 in Oregon, marking 72 US bank failures this year
Associated Press
Last update: August 7, 2009 – 10:46 PM

U.S. regulators close three banks
Fri Aug 14, 2009 10:08pm EDT

US regulators close Colonial
By Julie MacIntosh, Henny Sender and Saskia Scholtes in New York
Published: August 15 2009 00:52 | Last updated: August 15 2009 00:52

Aug 14, 2009 6:47 pm US/Eastern
Regulators Close Dwelling House Savings & Loan

Mas não nos fiquemos por alguns artigos mais recentes e vejamos a lista completa das falências de bancos e outras instituições financeiras nos EUA, aqui.

O que terá a dizer sobre isto o simplório simplex que escreveu esta simplexidade*.
E, havido este singelo momento de devaneio, passemos ao essencial.

A pergunta lógica a fazer em seguida é: Porque acontece isto nos Estados Unidos da América e não na Europa?

Exploremos algumas das razões que podem dar respostas plausíveis:
Algumas dessas razões podem encontrar-se neste artigo da BBC News publicado em 5 de Outubro do ano passado, German bank at risk of collapse:

The leaders also issued a joint call for a G8 summit “as soon as possible” to review the rules governing financial markets.
They decided instead to seek a relaxation of the EU rules governing the amount of money individual states can borrow.

UK Prime Minister Gordon Brown, meanwhile, called on European leaders to send the message that “no sound, solvent bank should be allowed to fail through lack of liquidity”.

Traduzindo e topicalizando:
1. Ignorar as regras da UE que determinam o montante máximo de empréstimos que cada país pode contrair;
2. Alterar as regras dos mercados financeiros;
3. Injectar liquidez em qualquer banco considerado solvente (mas não verificado, como se viu no caso do BPN).

Contudo, só isto não poderia explicar a quase absoluta ausência de falências bancárias nos países da UE. Como mantém a Europa esta liquidez, que aparentemente excede a produção de moeda pelo BCE?
A resposta a estas perguntas poderá estar subjacente a esta notícia que se reporta ao conhecido caso do departamento de justiça dos EUA contra o banco suíço UBS:

Putting figures on the secret banking industry is as precise a business as the old game of pinning the tail on the donkey, but experts reckon that Switzerland is home to about a third of the world’s $11 trillion or so in clandestine wealth.
What this week’s announcement adds up to is a small but significant crack in the giant black box that is Swiss banking.

Como se pode ler em cima, as autoridades norte americanas calculam em 11 triliões de dólares – pela escala numérica europeia, 11 biliões de dólares – os montantes depositados em contas reservadas de bancos europeus para fugir aos impostos nos EUA. Desses, calculam que apenas 1/3 esteja em contas suíças, o que significa que muito deste dinheiro estará em contas de outros países, que não forçosamente paraísos fiscais, como por exemplo o Liechtenstein, o Luxemburgo e a Bélgica (para só mencionar os suspeitos do costume).

Mas… que problema pode estar por detrás desta constatação?

UBS clients can report their accounts to the IRS until Sept. 23. Those voluntary disclosures helped widen the IRS net.
“As more Americans voluntarily come into compliance and face their financial obligations, more leads are being developed and new investigations are initiated,’’ acting US Attorney Jeffrey Sloman said.

É muito simples. À medida que o dinheiro for ficando visível, o interesse dos seus proprietários em mantê-lo na Europa desaparece. A maior parte destas contas europeias, que estavam em bancos ainda não acusados pela administração norte americana, já terão por esta altura zarpado para outros lugares e continentes, ou estarão em vias disso.
Ora, o resultado imediato desta acção será um decréscimo muito rápido e acentuado da liquidez nos países da Europa, agravado pelo facto de, em muitos casos, os bancos estarem a esconder este sangramento para não se colocarem à mercê das questões judiciais que daí resultariam.

E, a crise financeira voltará a agravar-se. Ou pensam que é por acaso que, ao contrário dos socretinos por aí andam (ainda), o senhor Trichet recomenda prudência (mesmo pressionado por Bernanke ao contrário) e a senhora Merkel faz estas declarações. Ora ora…

 

Nota: Este texto foi também publicado aqui.

*O mau neologismo simplex – tão ao gosto destes maviosos e loquazes nerd-socialistas – expressa muito bem a qualidade do que vai nas suas elementares cabecinhas.

O dinheiro enquanto dívida – Money as debt (2)

Ou, de como os políticos criam dinheiro a partir de nada.

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Os traficantes de dinheiro

Quanto vai custar aos Estados europeus, efectivamente, a recapitalização dos bancos? Estão de pé? Sentem-se por favor! A recapitalização dos bancos não vai custar nada. O exemplo francês é muito significativo. A operação vai ser feita através de uma holding de participações sociais do Estado (SPPE) que receberá um aval público de 360 biliões de euros. O Governo francês acredita que esta solução será aceite pelo Eurostat e que será portanto possível manter a previsão do défice. Em termos de dívida o impacte também será mínimo porque a entidade que se endivida é a SPPE. … (ultratóxicos, publicado por Joaquim em 14 Outubro 2008 no blogue Portugal Contemporâneo)
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Talvez não tenha percebido bem como se executa este truque? Então veja o vídeo em baixo (encontrado via Dragoscópio).

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É isto que a maioria das pessoas actualmente idolatra. É por causa disto que a humanidade mata, engana, destrói, atraiçoa…

 

6A piedade é, realmente, uma grande fonte de lucro para quem se contenta com o que tem. 7Pois nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele. 8Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. 9Mas os que querem enriquecer caem na tentação, na armadilha e em múltiplos desejos insensatos e nocivos que precipitam os homens na ruína e na perdição. 10Porque a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. Arrastados por ele, muitos se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições. (1Timóteo 6)

O bailout à portuguesa ou…

O lixo fica escondido, não desaparece e um dia quando se tira o tapete vê-se.*

 

Distorção nos mercados

 

1. O financiamento disfarçado do governo ao banco do Estado, a CGD:

 

A troca de 15% da REN e da AdP por 390 milhões de euros aliviou os rácios de capital da CGD. O banco não divulga o impacto da operação na sua solvabilidade, reafirmando que se “integra na reorganização das participações empresariais do Estado”. A Caixa fica com mais fundos para crescer. … (Jornal de Negócios, Redução da exposição da CGD à REN e AdP liberta capital, Maria João Gago, 03 Outubro 2008)

 

2. O financiamento do Estado a si mesmo à custa das dívidas por pagar às empresas privadas:

 

O receio de verem o Estado quebrar os contratos de prestação de serviços como forma de retaliação funcionou como principal motivo dissuasor para as empresas privadas não pedirem para ser incluídas na primeira listagem pública dos credores do Estado. … (Jornal de Negócios, “Medo de retaliações” afasta empresas da lista de credores, António Larguesa, 03 Outubro 2008)

 

Agora, uma coisa completamente diferente:

 

Geralmente esta classe costuma prestar favores especiais aqueles que os pedem, e isto quer dizer duas coisas, primeira: estes pedidos serão exemplarmente atendidos, e segunda: estes pedidos serão cobrados, e se querem um conselho, é bom vocês pagarem quando eles cobrarem. Portanto, se você tem um problema, não tem como resolvê-lo, e precisar de ajuda, venha até a Máfia, eles resolverão o seu caso. … (A Máfia, in Requiem-fórum de jogos, Sex Jun 20, 2008)

 

3. A opacidade dos poderes públicos neste país é tal, que os portugueses só virão a saber de uma qualquer falência bancária quando ela for noticiada… no estrangeiro.

*(Correio da Manhã, Mau negócio para o Estado, Armando Esteves Pereira, 14 Julho 2008)

 

O dinheiro enquanto dívida – Money as debt

Espantoso não é decorrer uma crise financeira, mas apenas ter demorado tanto tempo a aparecer.

Perceba porquê:

 

 

A economia irlandesa entrou em recessão no segundo trimestre do ano, tornando-se, assim, o primeiro país da Zona Euro a entrar em recessão.
Após dois trimestres consecutivos de contracção económica, a Irlanda entrou em recessão técnica, definida como dois trimestres consecutivos de contracção do PIB em cadeia. No segundo trimestre, a Irlanda contraiu-se 0,5% face aos primeiro três meses do ano, altura em que já tinha registado uma contracção de 0,3%.
Esta recessão coloca um ponto final em mais de uma década de expansão económica iniciada em meados dos anos 90 e impulsionada pelo sector exportador. Na última década, a economia irlandesa cresceu a uma média 7% ao ano, três vezes a média da Zona Euro. …
(Jornal de Negócios, Economia Irlandesa entra em recessão, por Ana Luísa Marques, publicado 25 de Setembro 2008)

… A definição técnica de recessão mais consensual entre os economistas é a de um crescimento negativo do produto em dois trimestres consecutivos. De acordo com esta definição, Portugal, nos últimos anos, não está em recessão. 2003 foi o único ano de crescimento negativo do produto: nesse ano o produto português terá diminuído 0,8%. Em 2005, cresceu 0,5%, em 2006, 1,2% e, em 2007, a economia portuguesa cresceu 1,9%. …
Estimativas num trabalho de investigadores do Banco de Portugal indicam que entre 2001 e 2005 o produto potencial português variou entre 1 e 1,5%. …
(A recessão da economia portuguesa: uma questão semântica? publicado 7 Março 2008, por Fernando Alexandre no blogue A Destreza das Dúvidas)

Oh, pá! Coitadinhos dos Irlandeses! E se nós lhes mandassemos o nosso inacreditável ministro dos impostos das finanças, para os enterrar ajudar nesta hora de crise?

… Interrogado sobre o “timing” para a adopção destas medidas, o titular da pasta da Finanças frisou que as mudanças a introduzir “não serão de curto prazo ou de emergência”.
“Sejamos claros: Portugal não está numa situação de emergência; quem está numa situação de emergência são os Estados Unidos”, vincou.  …
(Semanário, Pequenos bancos sem “funding” poderão entrar em colapso, 26 Setembro 2008)

Exactamente como se vê por aqui:

Por exemplo o Deutsche Bank, mais endividado do que a média (rácio de alavancagem de 50), tem passivos de dois biliões de euros, ou seja, mais de 80% da dimensão da economia alemã! … (Meia Hora, E se a “coisa” chega cá? por Filipe Garcia, 26 Setembro 2008, pág 19)

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em alta o valor estimado das perdas relacionadas com a crise financeira para 1,3 milhões de milhões de dólares (quase 900 mil milhões de euros). Este valor fica 30% acima da previsão anterior. … (Meia Hora, Perdas chegam aos milhões de milhões, 26 Setembro 2008, pág 18)

As taxas de juro do mercado monetário continuam em forte alta, revelando que os bancos estão cada vez mais relutantes em emprestar dinheiro entre si, à medida que cresce o pessimismo sobre a aprovação do plano para combater a crise nos Estados Unidos. … (Meia Hora, Euribor não pára de alcançar recordes, 26 Setembro 2008, pág 18)

Oh , pá! Coitados dos alemães! Os portugueses têm mesmo sorte, como aliás se pode ver a seguir:

Crise chega à banca portuguesa
A economia parou. Não há liquidez no sistema, os bancos estão sem liquidez e a venda de activos é lenta. Por outro lado, não há poupança para substituir o endividamento externo dos bancos nacionais. E a banca praticamente depende da liquidez cedida pelo banco central, que este ano é 23 vezes superior à do ano passado. …
(Semanário, Pequenos bancos sem “funding” poderão entrar em colapso, 26 Setembro 2008)