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Conduzir os desempregados a desesperados ou o Estado enquanto pessoa de mal.

Na sanha institucional para iludir os números do desemprego em Portugal os funcionários dos Centros de (des)Emprego e (de)Formação Profissional continuam a aconselhar(!), insistentemente, os beneficiários do subsídio de desemprego a receberem o respectivo montante por inteiro, como financiamento(?) de um qualquer negócio(?) que as vítimas, digo, os desempregados pensem poder criar.

Isto tem um duplo “efeito positivo” nos números das estatísticas oficiais, apregoáveis pelos organismos do Estado e pelo governo: diminui o número de desempregados inscritos e aumenta o número de pedidos de constituição de empresas(!) em nome individual.

Mas, num momento em que muitos dos negócios já instalados vêm as suas listas de clientes a diminuir e não conseguem manter-se em actividade, o que acontece realmente é que mais de metade destes empresários(?) instantâneos e impreparados não conseguem singrar.

Isto tem um duplo efeito negativo na vida destas pessoas, com repercussões violentas em todo o seu grupo familiar: voltam a ficar em situação de desemprego mas agora sem direito a receber qualquer subsídio e, muito pior, quase sempre com dívidas pesadas resultantes da falência das suas actividades.*

Fomentar o desespero é cruel,  desumano e perigosamente estúpido.

Nota: Manter as actuais chefias, escolhidas pelo anterior governo, na Segurança Social, na Administração Fiscal e no Ministério Público é uma opção suicidária por parte deste governo – como a seu tempo se irá constatar.

*Os exemplos são inúmeros, nem é preciso procurar; só no limitado âmbito dos meus conhecimentos são já uma dezena de casos.

Portugal está efectivamente em recessão económica.

Mas porque o negam tão desesperadamente Teixeira e Constâncio?

 

Avestruz

 

No passado dia 3 de Março de 2008, no decurso da sua intervenção na conferência “As Grandes Reformas Nacionais” promovida pela Associação Industrial do Minho, o economista Miguel Cadilhe afirma que Portugal se encontra em “recessão grave” desde 2002/2003 e defende que “o mau desempenho económico” do país deveria levar o Governo a accionar as cláusulas de excepção do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC).1

 

No dia seguinte, 4 de Março, O ministro das Finanças classifica de “gratuita”, “alarmista” e sem fundamentação técnica a afirmação de Miguel Cadilhe de que “Portugal está em recessão económica grave”. […] Convidado a comentar a afirmação do antigo ministro das Finanças de Cavaco Silva, Teixeira Santos, que se encontra em Bruxelas numa reunião de ministros das Finanças da União Europeia, disse aos jornalistas que essa afirmação não tem nada a ver com a realidade da economia do país.2

 

Há apenas 4 dias atrás, 15 de Julho de 2008, Luís Reis Ribeiro escreve no Diário Económico que Os alarmes soaram mas os economistas ainda evitam a palavra recessão. Com o desemprego a subir há dois meses consecutivos e o índice de produção industrial no valor mais baixo desde 1992, soaram os alarmes na europa. mas os Economistas ainda recusam a expressão. […] Os países mais pequenos e dependentes do comércio externo, como é o caso de Portugal, estão especialmente vulneráveis neste jogo. Fora da zona euro, o cenário é mais delicado: a Dinamarca entrou mesmo em recessão técnica no primeiro trimestre deste ano (dois trimestres seguidos de contracção do PIB), o Reino Unido para lá caminha, têm dado a entender vários observadores.3

 

 

No mesmo dia, 15 de Julho de 2008, O governador do Banco de Portugal afastou […] a hipótese de uma recessão económica em Portugal e até na Europa. Mas admite que, a nível mundial, a situação está a piorar a olhos vistos.7

 

Mas, afinal, está Portugal em recessão ou não? Sendo a Economia apenas uma ciência social, sem padrões exactos e universais, tudo depende dos conceitos e modelos escolhidos na análise.

 

Use-se, por exemplo, a definição de recessão da Cisco Investments:

 

A significant decline in activity spread across the economy, lasting longer than a few months. It is visible in industrial production, employment, real income, and wholesale-retail trade. The technical indicator of a recession is two consecutive quarters of negative economic growth as measured by a country’s GDP.

Tradução: Um declínio significativo em todas as actividades económicas, com duração de alguns meses. É visível na produção industrial, no emprego, no rendimento real e no comércio grossista e retalhista. O indicador técnico de uma recessão são dois trimestres consecutivos de crescimento económico negativo medido pelo PIB de um país.

 

Veja-se, ponto por ponto:

 

1. Haverá em Portugal um declínio significativo de todas as actividades económicas? Veja-se o que afirma o Informação Estatística > Publicações”>relatório da Síntese Económica de Conjuntura do INE respeitante a Junho de 2008:

 

Actividade económica: O indicador de actividade económica apresentou uma forte desaceleração em Maio, retomando a trajectória descendente iniciada em Janeiro e atingindo o valor mais baixo do último ano. A informação proveniente dos Indicadores de Curto Prazo, disponível para Maio, apontou para um menor dinamismo da actividade económica em todos os sectores: serviços, indústria e construção. […] O índice de volume de negócios nos serviços abrandou significativamente em Maio, retomando o movimento de Março e apresentando o crescimento homólogo mais baixo desde Junho de 2006 (0,7%, menos 2,8 p.p. que no mês anterior). Refira-se que a variação homóloga mensal do índice total passou de 4,6% em Abril para 0,0% em Maio. O índice de volume de negócios na indústria transformadora também desacelerou de forma significativa em Maio (3,4 p.p.), retomando o movimento observado em Março, ao apresentar um crescimento homólogo nominal de 2,5% (mínimo desde Fevereiro de 2006). […] O índice de produção da indústria transformadora passou de uma taxa de variação homóloga de 1,0% em Abril para -1,6% em Maio, retomando a trajectória descendente observada desde Maio de 2007 e atingindo o valor mais baixo desde Julho de 2005. O comportamento apresentado em Maio deveu-se ao movimento no mesmo sentido registado em todos os agrupamentos industriais. Note-se que este índice passou de uma variação homóloga mensal de 4,0% em Abril para -5,3% em Maio. […] Consumo: Em Maio, o indicador quantitativo do consumo privado reforçou o movimento descendente dos dois meses anteriores, atingindo o valor mais baixo desde Agosto de 2006, em resultado da desaceleração quer do consumo corrente, quer do duradouro. […] Investimento: os licenciamentos de novos fogos e habitações apresentaram em Maio diminuições significativamente mais intensas que no mês anterior atingindo o valor mínimo desde Fevereiro de 2001 e Setembro de 2003, respectivamente. […] O indicador referente ao material de transporte retomou em Maio o movimento descendente observado desde o início do ano, passando a situar-se abaixo da média da respectiva série. […] as vendas de veículos comerciais pesados têm vindo a desacelerar desde o início do ano, apresentando crescimentos homólogos de 8,8% e 4,6% em Maio e Junho, respectivamente. […] As vendas de veículos comerciais ligeiros reforçaram a trajectória descendente observada desde Julho transacto. Assim, a sua taxa de variação homóloga passou de -20,2% em Maio para -38,1% em Junho, enquanto a sua variação homóloga mensal passou de -21,2% para -59,5% nos mesmos períodos.O indicador de máquinas e equipamentos, disponível até Junho, abrandou significativamente, prolongando o movimento descendente observado desde o final de 2007 e atingindo o valor mais baixo desde Setembro de 2006. […] Mercado de Trabalho: Segundo o IEFP, as ofertas de emprego registadas ao longo do mês nos centros de emprego retomaram a acentuada trajectória descendente observada desde o início do ano, passando de uma variação homóloga de 1,4% em Abril para -3,5% em Maio e atingindo o mínimo dos últimos três anos. O desemprego registado ao longo do mês tem vindo a aumentar significativamente desde Fevereiro, observando-se variações homólogas de 5,3% em Abril e de 7,7% em Maio (máximo desde Junho de 2005). […] Em Junho, a inflação mensal foi de 3,4%, mais 0,6 p.p. que em Maio, prolongando o movimento ascendente anterior e atingindo o valor mais elevado dos últimos dois anos. Destacam-se os contributos positivos para a aceleração do índice total da classe de “produtos alimentares e bebidas não alcoólicas”, com um contributo de 0,4 p.p. 4 […]

 

Está demonstrado que há.

 

2. Terá continuado no 2º trimestre de 2008 (Abril, Maio e Junho) a variação negativa no crescimento do PIB já verificada no 1º trimestre?

 

Não foi ainda possível encontrar dados oficiais sobre a variação do PIB neste 2º trimestre de 2008, mas pode prever-se com uma margem de erro normalmente muito pequena que O Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal, no segundo trimestre de 2008, terá crescido 0,8% em termos homólogos contra o crescimento de 0,9% no primeiro trimestre deste ano, segundo o Núcleo de Estudos de Conjuntura da Economia Portuguesa (NECEP) da Universidade Católica, que, na sequência desta sua estimativa, cortou a previsão de crescimento da economia portuguesa em 2008 para 1,2%, contra 1,8% antes, prevendo ainda que o PIB de Portugal cresça 1,5% em 2009.5

 

Se vier a confirmar-se a previsão do crescimento do PIB no 2º trimestre de 2008 em 0,8%, isso significará que houve uma variação negativa de 0,1% relativamente ao 1º trimestre, e uma variação negativa de 0,8% relativamente ao período homólogo de 2007 (1,6%).

Estará, então, tecnicamente confirmada a recessão.

 

Finalmente, a resposta à pergunta colocada em subtítulo deste postal: Mas porque o negam tão desesperadamente Teixeira e Constâncio?

Em primeiro lugar estarão a dizer o que lhes manda Bruxelas, cujo estado de alienação da realidade se aprofunda visivelmente de dia para dia.

Em segundo lugar – e principalmente – não querem de modo nenhum admitir o total falhanço da política económica deste governo PS de Sócrates, que tem explorado sem pejo, com pesados impostos e um sem número de outras obrigações, os pequenos e médios empresários, a classe média que constitui a base produtiva deste país, optando por favorecer os grandes grupos financeiros cuja massa crítica de capital lhes permite obter lucro apenas especulando e sem nada produzir.

 

Incompetência é a inabilidade de alguém de desempenhar adequadamente uma determinada tarefa ou missão.6

 

1Cadilhe: Portugal está em “recessão grave” desde 2002/2003, no Público em 04.03.2008, por Victor Ferreira.

2Afirmação de Cadilhe é “gratuita” e “alarmista”, no Notícias.rtp.pt em 04.03.2008. (vd. tb. Ministro das Finanças rejeita afirmação de Cadilhe sobre recessão grave em Portugal, no Público em 04.03.2008, Lusa)

3Os alarmes soaram mas os economistas ainda evitam a palavra recessão, no Diário Económico em 15.07.2008, por Luís Reis Ribeiro.

4Síntese Económica da Conjuntura – Junho de 2008, relatório mensal do INE (transcrições parciais).

5Católica revê em baixa previsão de crescimento da economia portuguesa, no Diário Económico em 9.07.2008, por Rita Paz.

6Conceito de Incompetência, na Wikipedia.

 

7Constâncio não acredita em recessão em Portugal nem na Europa, no Agência Financeira em 15.07.2008 por Paula Gonçalves Martins.