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O complemento perfeito para a série de textos anterior

intitulada Uma nova cultura de ensinar e aprender (1), (2) e (3).

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Parson Weems’ Fable de Grant Wood - ilustraçãoA educação pública exerce enorme pressão sobre alunos e professores. É preciso que todos se conformem, que todos organizem o seu dia em unidades padronizadas de tempo e delimitadas pelo toque da campainha. À semelhança de uma unidade fabril, os operários picam o ponto ao som de um ruído agudo que percorre corredores e corações. … O sistema educativo precisa de ser transformado, os bons professores, que vêem a sua criatividade suprimida todos os dias, começam a abandonar o sistema. … A uniformização da educação destrói qualquer sistema com múltiplas e ineficazes reformas. … Perguntemos a qualquer adolescente o que aprendeu nas mais diversas disciplinas de um currículo sobrecarregado de informação … e a resposta será rápida: nada do que se passa nas aulas é estimulante. … Os professores precisam de ensinar aquilo que os alunos precisam de aprender, aquilo que cada um deles tem dentro, o currículo que se enquadra na essência de um grupo de gente que se senta para ouvir, falar e agir. O verdadeiro poder desta abordagem passaria por uma profunda transformação de todo o sistema educativo, por um profundo questionamento do que se entende por inteligência e por uma urgente reflexão sobre a importância da criatividade. … Enquanto os programas, desadequados da realidade, forem imposição sem critério, todo o sistema ruirá, porque não há inteligência que sobreviva a tanta mediocridade.
(transcrições parciais do texto A escola está a morrer da autoria de Luísa, publicado aqui)

Uma nova cultura de ensinar e aprender.(3)

Continuado daqui (1) e daqui (2).
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Quero supor que este artigo, colocado pelo Paulo de forma discreta, seja uma reacção – quiçá mesmo, uma bem intencionada tentativa de iniciar uma discussão? – ao 2.º postal desta série sobre a cultura do aprender e do ensinar que vem sendo publicada aqui no Jardim.
Julgo que este 3.º e último postal responderá, de certa forma, a algumas das questões levantadas pelo autor do artigo em referência, Salvador de Sousa, professor – e não ex-professor como ele diz, porque não se deixa de ser professor quando se deixa de leccionar: ou se é, sempre, ou nunca se foi.
Cá vai a 3.ª e última parte.
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15. Toda a aprendizagem é (deve ser) orientada por objectivos e não por unidades lectivas (tempos).
Isto não significa, de modo algum, que a estruturação da distribuição e dos períodos destinados às diversas actividades dentro da Escola não tenha que ser feita – senão será o caos. O que se critica aqui fica bem ilustrado, por exemplo, pelo professor(a) que logo na 1.ª aula, mesmo sem conhecer uma turma (e a sua velocidade de progressão na aprendizagem), marca os testes para todo o ano lectivo.
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16. Por outro lado, nenhum professor pode/deve ser responsabilizado pela não aprendizagem de algum ou alguns dos seus alunos.
Ninguém pode obrigar outra pessoa a aprender. O processo de aprendizagem livre (não coerciva) é auto-motivado, isto é, depende da vontade de quem aprende – querer aprender.

17. A aprendizagem em grupos (turmas) estruturada por tempos lectivos parte forçosamente do pressuposto que todos os membros do grupo podem aprender à mesma velocidade – o que é falso.
Uma forma de ultrapassar esta questão é tentar que os indivíduos funcionem mesmo em grupo – trabalhando em conjunto, auxiliando-se mutuamente. No entanto, isto é agora praticamente impossível de fazer em meio escolar, porque os actuais sistemas de avaliação académica promovem o individualismo e a competição pela (falsa) certificação, em si mesma e não como corolário do saber ou da competência.
(Sim, isto tem muito de política: é o resultado de uma sociedade “de tendência igualitária” que não premeia a competência e, principalmente, não castiga a incompetência… E, sim, estou mesmo a pensar nesses em que você está a pensar também.)
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18. Os actuais sistemas de avaliação/certificação (como diz, e muito bem, o autor do vídeo em baixo) só promovem a desonestidade no processo de aprendizagem e favorecem os desonestos nas provas.
Um dos pressupostos mais nefastos da cultura educativa portuguesa é o de que não é permitido falhar. Quem erra cria para si, da parte dos outros, um estigma de incapaz. Ora, não é possível aprender, de facto, sem errar – tal como é referido já no ponto 13. do postal anterior a este.

19. Uma nova cultura de ensinar e aprender não começa na Escola (toda a gente já sabia esta, não é?). Começa em casa, no trabalho, nas férias… qualquer lugar serve para aprender àquele que o deseja.
Aprender começa por ser uma opção e torna-se depois uma “adicção” (do inglês addiction – vício, dependência). Como diz o autor do vídeo, o conhecimento não é como um hamburguer: quando se partilha, não só não se fica com menos, como muito provavelmente acaba por se ficar com mais.

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Nota: O facto de ninguém estar disponível neste momento (ou neste lugar, ou neste contexto, ou…) para discutir este assunto não impede que ele tenha que ser discutido, mais cedo ou mais tarde. Share what you know, diz o autor do vídeo mesmo no final. I’ve shared: now it’s your turn… 😉

Uma nova cultura de ensinar e aprender.(2)

Esta foi a resposta de Paulo Guinote ao 1.º postal desta série sobre a temática dos métodos educativos (que ele próprio solicitava antes):
Lamento não ter percebido bem a profundeza do seu post…
Quanto ao “tom”, enfim, já estou habituado.
e já agora, não pedi nada… muito menos um professor coreano a dizer como se fazem coisas num país que não decreta licenciaturas ao domingo.
Que na Coreia há ética no trabalho educativo e não é preciso uma resma de despachos e portarias, eu sei.

(Paulo Guinote Diz: Dezembro 6, 2010 at 9:06 pm)
Não parece muito satisfeito, pois não? O registo leva a crer, também, que leu em diagonal e logo concluíu… sobre o que lá não diz.
Confesso que fiquei um bocadinho decepcionado, não tanto com a animosidade subjacente ao texto do Paulo, mas com a absoluta ausência de discussão em torno do tema – tema esse que o próprio afirmava pretender discutir. Enfim, também é uma metodologia… embora me pareça um bocadinho má-educação ignorar o assunto da conversa de quem se nos dirige. Não?
Talvez insistindo, quiçá…?
Cá vai a 2ª parte.
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9. A actual cultura escolar promove a passividade de alunos e professores: espera-se que os professores digam tudo do alto da sua autoridade e que os alunos fiquem para ali sentados a ouvir, aceitando sem questionar.
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10. Todos os professores sabem que, quanto menos os alunos perceberem o que eles dizem, menos questões lhes colocam – menos tempo e esforço dispendidos. Os alunos, por sua vez, sabem que quanto menos questionarem, menos esforço fazem e menos hipóteses haverá de criarem problemas com os professores.

11. A cultura escolar de hoje (e não só a escolar!) premeia quem percorre o caminho fácil, memorizando sem questionar e sem experimentar. Muitas, muitas, disciplinas sem qualquer valor científico a ocupar muito, muito, tempo, para que as crianças e os jovens fiquem muitas, muitas, horas dentro da escola e deixem os paizinhos em paz e sossego durante muito, muito, tempo.

12. A verdadeira motivação para aprender é… saber, não é ter boas notas em testes. Ninguém sabe verdadeiramente seja o que for antes de experimentar – das gramáticas às matemáticas.

13. Experimentar significa falhar, e falhar, e falhar, até acertar. Acertar é dominar um saber, não papagueá-lo de memória.

14. Aprender e ensinar são actividades que exigem muito esforço, vontade e persistência. Ninguém aprende realmente coisa alguma de forma passiva.

Uma nova cultura de ensinar e aprender.(1)

Argumentar, ou somente opinar, sobre métodos de ensino com um Doutor em História da Educação não parece ser coisa muito inteligente.
A não ser que… a abordagem pudesse ser feita, não no restrito do pedagógico, mas no alargado do cultural – em cujo âmbito qualquer um pode dizer, hoje em dia, qualquer barbaridade de forma politicamente correcta. É neste pressuposto que, do alto da minha quase ignorância das ditas ciências da Educação, me abalanço a dar o meu, forçosamente modesto, contributo para esta discussão, parcamente fundamentado nos vídeos de um norte-americano asiático (espero que esta seja a forma aceitável de dizer que o tipo é coreano) doutorado em Física, que não apresenta qualquer credibilidade postural.

Cá vai a 1ª parte.

1. Chega de reformas do sistema: o que é preciso é construir uma nova cultura de ensino e aprendizagem.

2. A escola actual é uma porcaria: não serve para aprender.

3. O processo aprender-ensinar depende do estabelecimento de uma relação pessoal entre quem aprende e quem ensina.

4. Para aprender, é preciso estar interessado.

5. Para ensinar bem é preciso saber muito sobre o que se ensina (e não muito sobre o ensinar em si mesmo).

6. As escolas não podem hoje contratar bons professores: o sistema obriga à contratação de pessoas certificadas mas não qualificadas.

7. Os bons professores despertam o interesse dos alunos: são competentes, empenhados, entusiatas, e não têm tempo para se preocupar com as suas carreiras – a prazo, são excluídos do sistema.

8. O interesse por aprender depende da existência de bons professores e não de novos edifícios, computadores ou quadros interactivos.

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Mensagem ao próximo Ministro da Educação…

Porque a actual não tem quaisquer condições de permanência.

Após a leitura desta carta que João Simas enviou ao deputado presidente da Comissão Parlamentar de Educação (via A Arte de Roubar), quero deixar aqui uma boa sugestão ao próximo gestor desta importante pasta governamental.

Sr.(a) novel Ministro(a): nunca se esqueça que a Escola também pode servir para ensinar e aprender.

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