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Para quem (diz que) não percebeu o meu postal anterior.

Cavalo de TróiaNão imaginava que fosse possível – dada a simplicidade – mas aparentemente terá mesmo havido quem não percebesse o meu postal anterior. A cada um as suas limitações… ou más intenções, tanto me faz.

Por feliz coincidência, poucas horas depois de eu ter publicado o meu sintético postal alguém viria a comentar a mesma notícia de modo muito idêntico, escrevendo um texto bem mais desenvolvido e explicativo cuja leitura recomendo vivamente.

Alcochete, o Freeport, o NAL e… sabe-se lá o quê mais?

“Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j’existe” (Porque duvido, penso; porque penso, existo).

 

Esta é a frase original do filósofo e matemático francês Descartes na sua obra Discours de la Méthode, a qual está na origem da muito usada expressão latina Cogito ergo sum, esta incompleta (completa seria: Dubito, ergo cogito, ergo sum) e proveniente da posterior tradução para latim da mencionada obra.

 

Assim, pode afirmar-se que é a dúvida que conduz, em última análise, ao conhecimento da existência – a própria ou a de qualquer outra coisa.

 

Grande negócio globalGrande negócio global 2

 

Vem isto a propósito da contínua relação do nome Alcochete com o do actual infausto primeiro-ministro. Sexto Empírico, um dos grandes continuadores de Pirro e do seu Cepticismo, escreve: “o fogo, que por essência queima, causa em cada um a representação de ser quente”1 e, também, “O fenómeno prevalece sobre todas as coisas, onde quer que se mostre”2. Em linguagem popular dir-se-ia: “Onde há fumo, há fogo” e “Onde está o fogo, a luz aparece” ou “Trabalho feito de noite, de dia aparece”.

 

No dia 14 de Março de 2002, três dias antes das eleições legislativas que retiraram o PS do poder, foi aprovado em Conselho de Ministros (o último da legislatura) o Decreto-Lei nº 140/2002 que reduziu a Zona de Protecção Especial (ZPE) do Estuário do Tejo e assim viabilizou a construção do Freeport em Alcochete. Era então ministro do Ambiente o actual primeiro-ministro.

 

O Freeport de Alcochete é um enorme centro comercial (o maior da Europa, segundo a sua própria publicidade), situado no “deserto” da margem Sul onde “jamais” (leia-se em francês: jamé) poderia localizar-se qualquer grande infra-estrutura, como, por exemplo, o novo aeroporto de Lisboa – isto, de acordo com o, ainda, ministro das Obras Públicas, o Eng.º Mário Lino (que é mesmo engenheiro, também segundo as suas próprias palavras). E, na verdade, o Freeport Outlet Alcochete terá chegado a estar mesmo à beira da falência em 2007, depois de anos em crise.

 

É então, também em 2007 (que coincidência!), que começam a circular notícias pondo ostensivamente em causa a localização na Ota do novo aeroporto de Lisboa (NAL) e aparece o estudo de uma alternativa à Ota da CIP (que conveniente!), entre outros,feito a pedido do primeiro-ministro, José Sócrates, o qual aponta a zona do campo de tiro de Alcochete como melhor alternativa para a localização do novo aeroporto. A este propósito leiam-se os postais anteriores deste Jardim, Lisboa – Novo Aeroporto Ou Novo “Ageitoporto”? e Lisboa – Novo Aeroporto Ou Novo “Ageitoporto”? (Parte 2).

 

Eis que de repente, não mais que de repente, prepara-se para nascer no “deserto de Alcochete”, uma espécie de Las Vegas à portuguesa. Tudo ali, ao pé umas coisas das outras, numa felicíssima coincidência. Terá o Zézito “bolado” este plano infalível? Ná! Isto requer mais do que esperteza: requer inteligência.

 

O que precisava o “Freepor” de Alcochete para vingar? Publicidade, muita publicidade? E o jeitão que dava um aeroporto mesmo ao pé? Então e não é que, por incrível(!) coincidência, é isso mesmo que está a acontecer? Ele há coisas…!

 

Interessante, muito interessante mesmo, seria saber quem são os proprietários dos terrenos na área de influência do Freeport de Alcochete e do novo aeroporto de Lisboa, em Alcochete, e quem foram os autores dos negócios (especulativos) de compra e venda desses terrenos nos últimos 4 ou 5 anos. Talvez se encontrassem informações muito elucidativas relativamente a algumas dúvidas agora “processualmente” persistentes…

 

1Hypotyposes Pirrônicas, III, 179.

2Contra os lógicos, I, 30.