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Deus, o bosão de Higgs e a importância das sombras.

Andam entusiasmadíssimos os cientistas, paracientistas e pseudocientistas; os jornalistas, escreventes, locutores, comentadores e paineleiros; os divulgadores, divagadores e outros basbaques porque terá sido encontrada (parece-lhes, dizem os mais prudentes)* uma «pegada» e uma «sombra» daquela que é considerada a mais elementar das partículas atómicas constitutivas do universoo bosão de Higgs ou partícula de Higgs [que] é uma partícula elementar hipotética, um bosão, o quantum do campo de Higgs. O campo e a partícula propiciam uma hipótese testável para a origem da massa nas partículas elementares. … o bosão de Higgs é também chamado a partícula de Deus …**

E do gravitão? Nem sombra dele, não é verdade?

Verdadeiramente espantoso é, no entanto, nunca eu ter topado alguém do grupo de pessoas acima descritas minimamente entusiasmado com outras sombras muito mais visíveis e efectivas, testemunhadas e descritas vai para 2 mil anos – … Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.» … ou … traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. … e todos eram curados. …

Como diz Abner Shimony, a ciência contemporânea é uma espécie de «metafísica experimental», mas há que constatar infelizmente que, no século XX, «a metafísica se tornou incompreensível».

*Após 48 anos e um número incontável de dinheiro gasto.
**Apesar de existir uma página da Wikipedia em português/brasileiro sobre o bosão de Higgs, o texto é tão mau que optei por traduzir um excerto da versão inglesa (os sublinhados são meus).

A conferência de Copenhaga e a ignorância global.

Capa de livroFaltam apenas três dias para terminar a tão falada conferência da ONU sobre o clima.

Os objectivos aí pretendidos atingir pela EU estão expressos nas afirmações a seguir transcritas (daqui): atingir “um novo acordo mundial, abrangente e ambicioso, para a resolução do problema das alterações climáticas”,  “para que o aumento da temperatura possa ser mantido inferior a 2°C”.

Esta gente não compreenderá o que está a dizer? Ou querem, de facto, enganar todo o mundo?

Resolver as alterações climáticas?! Manter o aumento da temperatura abaixo de 2ºC?!

Já agora, porque não também, estabelecer um valor máximo para as temperaturas nos desertos e para a humidade nas florestas tropicais?

Então estes iluminados não sabem que de há 3600 milhões de anos a esta parte – desde se formou uma atmosfera sobre o planeta – nunca pararam de acontecer inúmeras e enormes alterações climáticas? Custa a crer que todos eles tenham frequentado a UI ou que tenham obtido o diploma a um domingo…

Só nos últimos 2700 milhões de anos sabe-se que terão ocorrido 25 glaciações, a que correspondem outras tantos períodos de aquecimento interglaciário. Têm lugar em ciclos climáticos de aproximadamente 10 mil em 10 mil anos (os períodos interglaciários quentes) e duram cerca de 100 mil anos cada uma.

As discussões científicas sobre as possíveis causas destas variações climáticas cíclicas vêm já de longa data. A explicação mais comumente aceite na actualidade pela maioria dos cientistas encontra-se na teoria dos ciclos orbitais do matemático jugoslavo Milutin Milankovitch, segundo a qual o clima da Terra é determinado pelo volume de energia que ela recebe do sol e esse volume de energia é dependente de três factores astronómicos: excentricidade da órbita, inclinação e precessão do eixo do planeta. (ver aqui)

A esta macro teoria juntam-se, mais recentemente, outras que relacionam, para períodos geológicos mais curtos, a variabilidade climática com a dinâmica geomorfológica, baseados em registos geológicos como os dos ciclos de Dansgaard-Oeschger e dos eventos Heinrich. (ver aqui1)

Por outro lado, manda a honestidade que se diga que são factos observáveis, e observados, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, o desprendimento e sequente fusão de grandes massas de gelo das zonas polares, uma subida do nível médio das águas do mar. O que já não é honesto é afirmar peremptoriamente, perante a grandeza das forças em causa, que estes fenómenos se devem principalmente, ou exclusivamente como alguns dizem, ao aumento das emissões de CO2 para a atmosfera causado pelas actividades humanas.

Explicações simplistas de fenómenos complexos são produto de mentes simplórias… Ou mal intencionadas.

A comunicação social tem muitas culpas no agravar da ignorância e da desinformação relativamente a estes assuntos. A maior parte das notícias escritas a propósito desta conferência não contêm qualquer informação útil para a compreensão do tema. Ao ler estas notícias fica-se com a ideia de que, de um lado, uma data de políticos, inchados pela alta conta em que se têm e que supostamente representam a maior parte da humanidade, se reúnem lá num sítio qualquer para discutir se as fábricas vão continuar ou não a deitar fumo, se as centrais energéticas serão nucleares ou a carvão, ou se os automóveis no futuro serão movidos a electricidade ou a hidrogénio, com baterias ou pilhas de combustível, fazendo crer que dessas decisões depende se continuará a haver ou não alterações do clima. E, que do lado oposto existem umas criaturas muito altruístas e iluminadas pela deusa Gaia, as quais supostamente representam a parte restante (e melhor) da humanidade e, por isso, se sentem autorizados a provocar distúrbios, a apedrejar os agentes da polícia e a destruir a propriedade alheia.

Em suma, é a globalização da ignorância, a legitimação da malevolência e a institucionalização da estupidez.

1Reparem na incerteza demonstrada e na honestidade científica de quem o elabora este artigo, ao começar com a citação de Vera Markgraf: “The Earth’s climate has never been stable. Climate has varied on all time scales and will continue to vary in the future, irrespective of the extend to which human activities will afect it”.