A ilegalidade do AO90 começa no desrespeito pelas regras da acentuação em português.

Consulte-se uma qualquer gramática de Português actualizada sobre as regras de acentuação ortográfica e poderá ver-se aí que as palavras esdrúxulas ou proparoxítonas “acentuam-se sempre com acento agudo quando a vogal é aberta e com acento circunflexo quando a vogal é média”.

Pergunte-se então aos “indefetíveis” defensores do AO90 como é possível ler-se fátura onde está escrito “fatura”, adótado em “adotado”, afétivo em “afetivo”, afétuoso em “afetuoso”, bátista em “batista”, infécioso em “infecioso”, anticoncétivo em “anticoncetivo”, coátivo em “coativo”, colétivo em “coletivo”, concéção em “conceção”, confécionar em “confecionar”, espétador em “espetador”, desafétado em “desafetado”, desinfétante em “desinfetante”, detétive em “detetive”, efétivar em “efetivar”, frátura em “fratura”, indefétível em “indefetível”, infétado em “infetado”, inspécionar em “inspecionar”, intercétado em intercetado, introspétivo em “introspetivo”, invétivar em “invetivar”, lécionar em “lecionar”, létivo em “letivo”, objétivo em “objetivo”, pára-choques em “para-choques”, percétivo em “percetivo”, perspétiva em “perspetiva”, prospétivo em “prospetivo”, recétivo em “recetivo”, reflétivo em “refletivo”, respétivo em “respetivo”, retrospétiva em “retrospetiva”, vétorial em “vetorial”?*

AO90 - disparates

Como farão os professores de português para ensinar isto nas escolas? Darão aos alunos uma imensa lista de vocábulos que são excepção à regra gramatical? E ninguém pára isto? Ninguém desliga o “interrutor” (sim, parece mentira mas “interrutor” é o neovocábulo acordístico para interruptor) aos iluminados crâneos que inventaram esta monumental fraude linguística?

*E, há muitos mais exemplos para quem quiser dar-se ao trabalho de procurar aqui.

12 responses to “A ilegalidade do AO90 começa no desrespeito pelas regras da acentuação em português.

  1. Caro zedeportugal:

    deve haver aqui uma confusão qualquer.

    O seu parágrafo inicial fala de palavras esdrúxulas (ou paroxítonas), dizendo que estas levam sempre acento gráfico (‘ ou ^), dependendo da qualidade sonora (digamos assim) da vogal da sílaba tónica: se a vogal for aberta, usa-se acento agudo; se for média, acento circunflexo.

    E diz muito bem.

    No entanto, os exemplos que dá são, todos eles, de palavras graves (ou paroxítonas) e agudas (ou oxítonas) : a serem acentuadas graficamente, seriam, necessariamente, na sílaba tónica.

    Ora, nem mesmo no AO42 (o actual) as palavras que aponta levavam acento. A explicação era a seguinte: “Não precisam de acento por causa do “c” ou do “p” antes da consoante seguinte”.

    Esta explicação é insuficiente, pois o “c” e o “p” não abrem rigorosamente nada, senão “sapato” teria de ser lido como “sá-pá-to”; “secador” como “sé-ca-dor”, etc. – o que não acontece (em Portugal, pelo menos).

    Alguns exemplos de palavras nas quais as vogais antes de consoante “t” ou “c” são abertas:

    meta; neto(a) (e bisneto, trineto); completo; bata, cata-vento, cordato(a), espargata, dislate, permanganato, borato, insensato, macaco, sapato…

    Estas palavras sempre se escreveram sem “c” antes do “t” ou do “c” e nunca foram acentuadas graficamente, e nem por isso deixaram de ser vogais abertas.

    Cordialmente,

    Eduardo Coelho

    • Caro Eduardo Coelho,

      Em primeiro lugar quero agradecer o seu comentário.
      Vou responder-lhe pressupondo que é um defensor do AO90, apenas para balizar a minha argumentação e sem qualquer intenção hostil.

      Note quão extraordinário é como o seu texto esclarece bem a (sua) confusão e você nem dá por isso.

      Mas, vamos por partes. Escreve o Eduardo:

      – «No entanto, os exemplos que dá são, todos eles, de palavras graves (ou paroxítonas) e agudas (ou oxítonas) : a serem acentuadas graficamente, seriam, necessariamente, na sílaba tónica.»
      Nem mais. Por isso mesmo estava lá a consoante muda – para abrir a vogal que não pode ser acentuada. No entanto, se é professor (como parece) verá que brevemente os seus alunos vão escrever fonéticamente estas palavras, tal como estão registadas em itálico no texto acima.

      – «Ora, nem mesmo no AO42 (o actual) as palavras que aponta levavam acento. A explicação era a seguinte: “Não precisam de acento por causa do “c” ou do “p” antes da consoante seguinte”.
      Esta explicação é insuficiente, pois o “c” e o “p” não abrem rigorosamente nada, senão “sapato” teria de ser lido como “sá-pá-to”; “secador” como “sé-ca-dor”, etc. – o que não acontece (em Portugal, pelo menos).»
      Devo referir previamente que gostei da admissão que o Acordo Ortográfico actual (sua palavra) é o anterior a esta aberração ortográfica que agora nos querem impor, o AO45 (em Portugal). Mais uma vez está cheio de razão, mas parece não o entender. É claro que as consoantes “c” ou “p” isoladas não produzem qualquer efeito na acentuação. Esse efeito resulta da sua presença como consoantes dobradas, isto é, colocadas antes de outras consoantes, embora isso não constitua regra (estou a lembrar-me, meramente a título de exemplo expedito, das palavras captação ou declinar).

      – «meta; neto(a) (e bisneto, trineto); completo; bata, cata-vento, cordato(a), espargata, dislate, permanganato, borato, insensato, macaco, sapato…
      Estas palavras sempre se escreveram sem “c” antes do “t” ou do “c” e nunca foram acentuadas graficamente, e nem por isso deixaram de ser vogais abertas.»
      Mais uma vez apresenta exemplos que só enfatizam o que está escrito no artigo que comenta. Repare que todas as palavras que usou são graves ou paroxítonas (a maioria das palavras em Português), das quais se diz que são naturalmente acentuadas na penúltima sílaba sem necessitarem para isso de acento gráfico, salvo algumas excepções que decerto conhecerá. Por essa razão, essas palavras que deu como exemplo têm a vogal da sílaba tónica aberta, tal como todos os exemplos que usei no artigo virão a ter se não forem ensinadas aos alunos, uma por uma, como excepções à regra geral. Assim , resta-me agradecer-lhe o reforço do caso que apresento.

      Atenciosamente,
      José

  2. A Associação de Professores de Português não pode pedir uma audiência ao ministro da Educação e exigir uma tomada de posição célere, por parte do Governo? Ou…como “bons portugueses”, vamos esperar que o assunto se resolva por si?

    • O que devemos fazer, sem sair do conforto do lar e com muito pouco esforço individual, é subscrever a ILC Contra o AO, meu caro Jaime.
      São necessárias 35 mil assinaturas para que os cidadãos possam submeter à A.R. uma proposta de lei, e mesmo assim… (veja o que aconteceu com a ILC Contra a Preceriedade Laboral, que deu entrada e, depois de percorrer o calvário administrativo dentro da A.R., os senhores deputados recusaram-se simplesmente a votá-la na generalidade).

  3. Pingback: Perguntem ao Jaime Gama! « perspectivas

  4. O texto lembra o prof. Pascoalli que na TV Cultura e posteriormete na Globo enfiava suas convicções goela abaixo. Falta técnica e faltou ética no “interruptor” que assim manda o AO em standby.
    A Arlette esclarece melhor, traz mais luz:
    – Palavras esdrúxulas são as proparoxítonas, isto é, aquelas cujo acento tônico recai sobre a antepenúltima sílaba
    -As falsas esdrúxulas são aquelas palavras que, embora terminadas num encontro vocálico, ao separarmos em sílabas, poderão ser classificadas como :
    —>paroxítonas terminadas em ditongo crescente ( his-tó-ria ) ou
    —>proparoxítona ou falsa esdrúxula ( his-tó-ri-a )

  5. O que aqui vai de confusão. Interruptor não muda com o acordo ortográfico, mantém-se interruptor, como sempre. Todos os exemplos que dá são de palavras que não são esdrúxulas e que por isso não levam acento. Isso também se mantém. Os cês e pês não funcionavam como acento, serviam em alguns casos para abrir a vogal que estava antes – mas noutros casos não serviam para nada, como em actor.

    Como farão os professores agora para dizer que aquela vogal é aberta? Ora essa, homem, farão da mesma maneira que sempre fizeram com palavras que têm uma vogal aberta antes da sílaba tónica, como corar, padeiro ou inflação. Nunca daí veio mal ao mundo. ~

    Ao acordista Eduardo Coelho, a ortografia que era seguida até há pouco tempo era de 1945, não de 1942, e as esdrúxulas são proparoxítonas, não paroxítonas. E tantas coisas mais…

    • Caro Paulo Santos,
      tenho que lhe dizer que está pouco atento para quem vem aqui fazer o papel de sabichão condescendente.
      Como poderá verificar no linque seguinte (http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=novoacordo&act=list&letter=i) a palavra interruptor passa a “interrutor” segundo consta na lista de palavras do chamado “Vocabulário de Mudança” patente no Portal da Língua Portuguesa.
      Quanto às palavras que uso e registo sob duas formas, uma fonética e outra neovocabular segundo o AO, não percebo onde é que possa ter lido no meu texto que são palavras esdrúxulas… A referância a esdrúxulas no início do artigo destina-se apenas a chamar a atenção para o erro que virá a ser cometido por muitos alunos quando começarem a acentuar na antepenúltima sílaba as palavras graves que refiro. E não pense que estou a falar por falar, mas porque já o verifiquei. E, ainda estamos só no princípio da coisa.
      Gosto do exemplo que escolheu para afirmar que o “c” antes da consoante seguinte «não servia para nada». Vejamos porquê. A palavra manterá o “c” em inglês (essa língua arcaica, que por não ter sido sujeita a um acordo ortográfico de unificação com as suas inúmeras variantes brevemente deixará de ser utilizada…) e em francês – “actor” e “acteur”. Preveja a quantidade de erros que os alunos irão dar a escrever essas palavras nas línguas referidas.
      Finalmente, só a sua falta de atenção pode explicar que chame “acordista” ao Eduardo Coelho, que o não é.
      Portanto, como vê, meu caro Paulo, a sua confusão é fundamentalmente causada pela sua própria falta de atenção. Fico a aguardar os seus próximos comentários. Um grande bem-haja é o que lhe desejo…

  6. Boa tarde, zedeportugal.
    1. Não houve nenhum acordo em 1942. Houve um Formulário Ortográfico no Brasil (1943) e um AO em Portugal (1945). Pressuponho que estaria a referir-se à última data.
    2. Quanto às situações que indica, há exemplos que mostram que, mesmo sem o c ou o p, pode não haver um fechamento da vogal. Exemplos: inflação e várias formas do verbo atar (ato, ata, etc). Já tínhamos o apelido Baptista a conviver com Batista. A pronúncia era e é a mesma. Muitos acentos desambiguadores foram eliminados no AO45, passando a escrever-se da mesma forma palavras com pronúncias distintas, como, por exemplo: coro(nome)/coro(verbo corar); colher(verbo)/colher(nome); piloto (nome)/piloto(verbo pilotar); fosso(nome); fosso(verbo fossar). Na altura, houve grande desconforto em relação, mas os acentos não voltaram e ninguém os pede de volta.
    3. Erva já foi herva; ditongo já se escreveu diphtongo; martírio já teve y; antes de assunto, tivemos assumpto. E caiu o carmo e a trindade quando, em 1911, se deu a maior razia na língua portuguesa.
    4. A ortografia é apenas uma convenção. A alma da língua portuguesa é muito do que isso: é escrever com clareza, com morfossintaxe escorreita, riqueza de vocabulário, estilo próprio…
    A língua sobreviveu às “sangrias” de 1911, às de 1945 e sobreviverá às do AO90 e outras com que os nossos filhos e netos se confrontarão no futuro.

    Abraço e bom fim de semana.
    AJ

    • Boa tarde AJ
      Não gosto muito de me dirigir a alguém que se me apresenta com iniciais… mas enfim, lá vai.
      1. Eu sei que não houve nenhum acordo ortográfico em 1942, tanto que o digo na resposta ao comentador Eduardo Coelho, o qual, estou certo, apenas o escreveu por lapso.
      2. Todos os exemplos que dá são de palavras graves (apenas colher é aguda) que não perderam (pelo menos numa das suas formas) a vogal aberta… na sílaba tónica (excepto a palavra baptista, que os brasileiros lêem “bâ-tis-ta”, como sabe). Por outro lado, todos os meus exemplos no artigo são de palavras que, supostamente, deverão manter vogal aberta numa sílaba átona, e logo naquela sílaba que quando é tónica obriga (e continua a obrigar após o famigerado AO90) ao uso de acento – não é por acaso que tal refiro no 1.º parágrafo do meu texto.
      Os exemplos que dá relativamente a palavras homógrafas mas de fonia diferente se referem a palavras de classes gramaticais distintas, uma um nome ou substantivo e outra uma forma verbal, que por essa razão se supõem facilmente distinguíveis numa frase. Mas, – fará o favor de concordar comigo – quando isoladas não há agora maneira de as distinguir.
      3. (e seguintes) Agradeço-lhe ter trazido à discussão a “sangria” (nas suas próprias palavras) de 1911 – a mutilação, lhe chamaria eu, que nos trouxe até aqui após milhentas “correcções” – o que me obriga a continuar a responder num novo artigo, cuja leitura lhe recomendo desde já porque a parte mais substancial (digamos assim) da resposta ali a colocarei.
      Abraço e boa semana,
      José

  7. António José

    Boa noite, José!
    Queria apenas traduzir as iniciais: AJ = António José.
    Irei acompanhar com interesse os desenvolvimentos do tema aqui no blogue.
    Boa semana também para si.
    António José

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