Caminhada.(3)

Faz hoje 4 anos e 10 dias que este blogue foi criado na plataforma da IOL (e seria posteriormente apagado sem aviso) e faz exactamente 4 anos que foi mudado para aquela que, pensei  (no meu desconhecimento ainda da impermanência deste mundo virtual), iria ser a sua casa definitiva – o alojamento espanhol NIREBLOG.

O 1.º e 2.º aniversários, em 2008 e 2009, foram assinalados na data de publicação do 1.º artigo, 20 de Agosto, porque ainda existia o primitivo blogue na IOL para o qual podia lincar. O ano passado acabei por não recordar a data por diversas razões.

Este ano decidi comemorar esta memória com a re-publicação (a partir de rascunho: – sim, eu guardo rascunhos de quase tudo) de um dos primeiros artigos, entretanto desaparecido, o excerto (da tradução para português) do poema de T. S. Eliot(1) que está na origem do nome escolhido para este blogue.

Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.


                          Ó meu povo, que te fiz eu.


Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na húmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido


Rezará a irmã velada por aqueles

Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam


                       Ó meu povo, que te fiz eu.


Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.


                     Ó meu povo

(1) Collected Poems 1909-1962, poem Ash-Wednesday-1930, part V. If the lost word is lost, if the spent word is spent, H. B. & W Inc. Editors, New York, 1963 (pode ler e descarregar o original em inglês aqui), na excelente tradução de Ivan Junqueira (aqui).

One response to “Caminhada.(3)

  1. Pingback: Be Still My Soul (In You I Rest). | Um Jardim no Deserto

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