O governo da honestidade maioritariamente relativa ou

o que é preciso é “sacar o mais possível “.

.
Há poucos anos atrás tive que suportar, por razões de ordem profissional, um esperto que insistia em maximizar o lucro daqueles que lhe davam trabalho à custa do prejuízo daqueles para quem o trabalho era efectuado. Um dia, a criatura obviamente agastada porque as suas espertezas esbarravam invariavelmente nas barreiras da minha experiência e da minha rectidão, virou-se para mim e disse-me: – Não o percebo, pá! Então não andamos aqui todos ao mesmo? Não andamos aqui todos a tentar sacar o mais possível?
.
Vem isto a propósito da seguinte notícia – Perdão fiscal para capitais repatriados –, a qual já havia sido trazida para aqui neste postal anterior mas que considero merecer um comentário acrescido.
Abutres empilhadosTrata-se, claramente, da aplicação do tal princípio de “sacar o mais possível”. O governo decreta um perdão fiscal especial, destinado a pessoas que cometeram um crime fiscal e que o fizeram exactamente porque têm muito dinheiro.
Os outros, os que nunca tiveram nem virão alguma vez a ter o suficiente para “poupanças ilegalmente colocadas no exterior” (reparem no cuidado com que a coisa é dita) são arbitrariamente acusados e perseguidos pela administração fiscal, que lhes penhora miseráveis pensões e ordenados, ou os bens afectos às respectivas actividades, liquidando-as.

A mensagem é clara: o importante não é a punição (ou o perdão) do crime fiscal, mas o quanto é que o Estado pode “sacar” à conta desse crime em troca do perdão.

Nem outra coisa seria de esperar de gente cujo estado de honestidade relativa está amplamente demonstrado neste pequeno excerto de uma notícia:
.

… O Tribunal de Contas não valida – o que é grave – o défice apresentado na Conta Geral do Estado. Não contente com isso, afirma que a contabilização das receitas do Estado não cumpre os requisitos legais; que a Segurança Social cometeu «erros significativos» na classificação das receitas e das despesas; que a contribuição de serviço rodoviário criada para financiar as Estradas de Portugal não foi devidamente orçamentada; que existem deficiências na afectação do IVA; que há falta de transparência na passagem de dinheiros do Fundo de Estabilização da Segurança Social por off-shores; que a Inspecção-Geral de Finanças detectou irregularidades no crédito bonificado; que há incoerências no valor da receita cobrada por alienação de bens do Estado; que o aval do Estado ao empréstimo de 450 milhões de euros contraído pelo BPP junto de outros bancos não cumpriu os requisitos exigidos por lei e até que o governo autorizou indevidamente um subsídio de 9 milhões de euros à Fundação Ricardo Espírito Santo. …
(O Joio e o Trigo, por Maria Filomena Mónica, publicado em 01 de Fevereiro de 2010 no jornal i)

One response to “O governo da honestidade maioritariamente relativa ou

  1. E mesmo assim, continuo a ouvir gente defendendo esta corja.
    É que já não há pachorra!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s