As sondagens podem estar a enganar os portugueses?

A propósito da sondagem feita pela Eurosondagem, conforme publicada em notícia do jornal Expresso de hoje.

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Vêm de há muito as suspeitas sobre a seriedade e a isenção da empresa Eurosondagem.

24 Janeiro 2006
“Eurosondagens”
(dados aqui)
Muitas suspeitas se levantaram sobre a seriedade da empresa Eurosondagem nestas eleições presidênciais. De facto, as sondagens que esta empresa deitava cá para fora tinham o dom de não bater com nenhuma das outras. Tinham sempre uma particularidade, Soares estava sempre à frente de Alegre. Chegou mesmo a dar Soares com 20,4% e Alegre com 12,5% numa amostra aleatória de 2064 almas e a 22 de Dezembro ainda dava Soares com 22% e Alegre com 12% numa amostra aleatória de 1047 almas. …

(no blogue Tonibler)

Algumas destas suspeitas vieram mesmo de gente do partido socialista.

16-12-2005 – 17:42h
Alegre estranha «sintonia» entre Jorge Coelho e Eurosondagem
A candidatura de Manuel Alegre manifestou-se hoje preocupada com a isenção das sondagens da Eurosondagem e com a “sintonia” entre o responsável desta empresa, Rui Oliveira e Costa, também dirigente do PS, com o socialista Jorge Coelho.
Em comunicado, a candidatura de Manuel Alegre avisa que “a disputa eleitoral tem regras e a principal é a da decência” e, ainda, que “manda a decência que as sondagens sejam feitas com total isenção”. …

(no Portugal Diário)

 

As sondagens, e as análises estatísticas em geral, podem facilmente ser manipuladas e mesmo falseadas.

1. Como é possível manipular uma sondagem?

1.1. Qualificando de certa maneira os resultados obtidos. Pode usar-se como exemplo o próprio título da notícia do Expresso que veicula os resultados: Maioria absoluta do PS outra vez mais perto.

1.2. Escolhendo um momento em especial para fazer ou publicar essa sondagem. A mesma notícia do Expresso também fornece um bom exemplo para ilustrar esta situação: As ‘gaffes’ de Manuela Ferreira Leite e os salpicos do caso BPN contribuíram para esta quebra do partido liderante da oposição.

2. Como é possível falsear uma sondagem?

2.1. O método mais óbvio é falseando a amostra. Isto é particularmente simples de fazer  nos casos em que a consulta é telefónica e confidencial, isto é, em que se torna muito difícil saber quem respondeu de facto às questões da sondagem (veja-se a ficha técnica técnica da sondagem no final da notícia do Expresso que tem vindo a ser referida). Pode dar-se como exemplo o seguinte cenário possível: pede-se aos entrevistadores que escolham números de telefone de determinadas áreas onde foi mais significativa a votação num determinado partido, sabendo à partida que as probabilidades (cálculo de probabilidades também é Estatística) de encontrar um apoiante desse partido são muito grandes.

Nota: Podem, evidentemente, imaginar-se cenários muito mais graves de fraude na amostra. Basta usar a intuição, a constatação e… como faz o David Oliveira no seu Pleitos Apostilas e Comentários.

2.2. Contudo, mesmo sem falsear a amostra pode estruturar-se o questionário com vista a obter um determinado tipo de resposta final. Veja-se, usando como exemplo a própria ficha técnica desta sondagem publicada no Expresso, o tipo de questões e por que ordem foram colocadas: (a sondagem)Teve por objecto perguntas sobre avaliação de desempenho(1ª), conflitos na educação(2ª) e o “caso BPN”(3ª), além das intenções de voto(4ª)…

Limitação de responsabilidade: Em passo nenhum deste texto de análise do processo, estatisticamente baseado, de produção de uma sondagem está expressa qualquer acusação de fraude ou falseamento desta sondagem, ou de outras anteriores, pela empresa Eurosondagem. O autor do texto limita-se a usar os seus conhecimentos de Estatística Prática para descrever algumas das possibilidades de manipular ou falsear resultados neste tipo de processos. O autor deste blogue decidiu fazer aqui esta declaração, tendente a esclarecer quaisquer dúvidas sobre as suas intenções, por ter tido conhecimento de ameaças anteriores do senhor Rui Oliveira e Costa a quem questiona os resultados das sondagens da empresa que lidera.

9 responses to “As sondagens podem estar a enganar os portugueses?

  1. David Oliveira

    Amigo e companheiro,
    clap, clap, clap…
    boa malha
    Abraço
    David Oliveira

  2. Se as sondagens mostram que, apesar do descontentamento com o governo PS, o partido está bem à frente do maior rival da oposição e pouco distante de nova maioria absoluta, é óbvio que a intenção é mostrar ao povo que, apesar de tudo, ainda há muita gente a acreditar neste governo e que eu (apenas um indivíduo) é que devo estar enganado.
    Os casos repetidos do Manuel Alegre, são outra manobra de “génio”. Ele vota à parte, demarca-se de políticas erradas, apenas para que os votantes habituais no PS não fujam para outros partidos. No final, fica tudo em casa, pois só há um PS!
    A Bem da Nação!

  3. Caríssimo Zé,
    Muito bem desmontado. Essa de o Oliveira e Costa ser também dirigente do PS e, como é tradição, ameaça quem questiona a fiabilidade do trabalho da sua empresa, é mais um informe digno de toda a pertinência. Parabéns.
    O caramelo nomeado também está de parabéns pela Farsa balão de oxigénio de estas sondagens em este tempo aflitivo.
    Um Abraço.
    joshua

  4. Os «tios» começam a dar sinais de andar irritados por tudo e por nada. Ora, só porque (por coincidência) o dono da empresa de sondagem é simultaneamente dirigente do PS, isso vai retirar isenção às suas sondagens? Não!!!! Pelo contrário, até dá mais credibilidade…!!!
    No que respeita às possibilidades de manipulação com que concordo, acrescento mais uma: a pura «invenção» das respostas. Quem controla, afinal, essas sondagens? São feitas por voto secreto e escrutinadas por uma comissão ou lá como se chama…?

  5. De facto, é no mínimo estranho, para não dizer mais alguma coisa, que uma empresa de sondagens de opinião (que, necessariamente, utiliza as TIC em profusão para apresentar o seu “produto”) não tenha uma simples página web, apenas constando – com endereço postal e número de telefone – de alguns indexadores e directórios profissionais. Ou seja, trata-se de uma empresa que recorre às TIC para obter resultados, mas que despreza as mesmas TIC para os fundamentar.
    Provavelmente, o chamado “direito ao contraditório” (ou mesmo a possibilidade de alguém colocar a mais trivial das objecções) não é – exclusivamente – para aqui chamado, presumindo-se que 10 milhões de portugueses terão necessariamente de engolir quaisquer “sondagens” desta empresa sem tugir nem mugir e sem direito a sequer saber como raio, em relação a quê e com que fundamentação são cozinhadas as percentagens desses mesmos “estudos de opinião”.

  6. Adenda ao meu comentário anterior.
    Para dar apenas um exemplo daquilo que toda a gente sabe, na Gallup, além de fichas técnicas, critérios e regras perfeitamente definidas para qualquer tipo de sondagem, existe mesmo uma coisa que se chama “Polling Police“. Aqui fica uma amostra a condizer:
    «Government and Politics
    A recent Wall Street Journal article on the filibuster included the results of a public opinion poll, but did not include the question asked of respondents. Since respondents’ opinions are shaped by question wording, it is essential to know the precise question before interpreting results.»

  7. Obrigado pelo pertinente complemento e pelos úteis esclarecimentos, caro JPG.
    Virtus Unita Fortius Agit.

  8. A propósito de «You write what you’re told» – um cartoon esplêndido no site Know Your Rights (Declaração Universal dos Direitos Humanos):

  9. Agradeço a todos os comentadores as suas contribuições e opiniões.
    Aquela frase latina que coloquei no meu comentário anterior era-vos já dirigida, só que me esqueci de explicar isso.
    Virtus Unita Fortius Agit, cuja tradução aproximada é: Unidos Somos Mais Fortes.

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