Dar comida aos famintos:

a transparência das acções do Programa Alimentar das Nações Unidas versus a opacidade das ajudas controladas pelo Estado português.

 

No seguimento lógico do postal anterior, qualquer pessoa perguntará o que é possível fazer para mitigar o cruel sofrimento da fome.

Uma forma simples e gratuita de qualquer pessoa ajudar a alimentar gente faminta por esse mundo é, por exemplo, aderir à iniciativa “Free Rice”. Trata-se de um conjunto de jogos educativos (aparece sempre o do vocabulário inglês, mas se clicar em “Change Subjects”, no canto superior esquerdo da janela onde decorre o jogo, verá muitas outras escolhas) que cada vez que são jogados criam um contributo em grãos de arroz, a ser entregue pelos patrocinadores do jogo ao Programa Alimentar das Nações para a ajuda aos famintos.

Tudo está convenientemente explicado no sítio Free Rice.com, desde os objectivos (no separador ABOUT), até aos totais recolhidos (no separador TOTALS) e à explicação da iniciativa (separador FAQ, a partir da pergunta “If FreeRice has the rice to give, why not give it all away right now?”).

Para jogar basta clicar no banner aqui em baixo ou no que juntei à barra lateral do blogue.

Tudo simples, tudo transparente.

 


Help end world hunger


Mas, infelizmente, em Portugal também existe fome. Serão agora cerca de 200 mil pessoas e, diz quem sabe, este número aumentou significativamente durante actual período governativo. Desde 2003 que os governos portugueses têm recebido auxílio alimentar da União Europeia, no valor de milhões de euros, ao abrigo do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar, cujo acesso pelas instituições de caridade social (como, por exemplo, a União das Misericórdias Portuguesas ou a Cáritas) é cada vez mais difícil. Este ano não foi excepção:

 

Portugal recebeu este ano 12,5 milhões de euros do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados, uma iniciativa europeia originalmente concebida para canalizar excedentes agrícolas para as populações mais desfavorecidas, entre as quais Portugal se inscreve, com 18% dos indivíduos em risco de pobreza.*

 

Contudo, algo mudou este ano:

 

Ao contrário do que sucedeu em 2006 e 2007, anos em que Portugal recebeu uma contribuição em géneros – como resultado de excedentes agrícolas e produtos intervencionados -, este ano a queda brutal de “stocks” na União Europeia levou a que a contribuição em géneros se limitasse a 1,6 milhões de toneladas de açúcar, único produto excedentário disponível. A alternativa foi a dotação em dinheiro, com o qual o Ministério da Agricultura deverá adquirir, em concurso público, cereais, arroz e leite em pó.*

 

O facto de a ajuda ter sido recebida em dinheiro obriga a algumas questões óbvias.

Que tipo de bens devem ser adquiridos? Porquê arroz e leite em pó e não feijão e leite condensado? Quem decide a aquisição dos bens alimentares? Porquê o Ministério da Agricultura e não as instituições, em função das necessidades mais específicas da região ou dos indivíduos a assistir? Mas, principalmente, a quem vão ser adquiridos os tais bens alimentares? A aquisição em concurso público não garante neste país qualquer isenção na escolha do fornecedor – como toda a gente sabe mas finge que não sabe. Quem irá ser “porreiramente” beneficiado? É que não são trocos, são 11, 2 milhões de euros!

*Portugal recebe 12 milhões da UE para dar comida aos pobres, por Carla Aguiar, no DN em 18 de Setembro de 2008.

 

2 responses to “Dar comida aos famintos:

  1. Desconhecia isto, em absoluto, apesar de ler (pelo menos) 3 jornais por dia. O que também deve significar alguma coisa; quero dizer, até a escassa divulgação interessará por certo a alguém.
    Já agora, e vendo a coisa pelo lado mais negro (porque este assunto não tem outro), parece-me que existirão pessoas “porreiramente” beneficiadas com os 11 M… em duas tranches, ou duplamente: a montante, nos ajudicatários que escolhem “adjudicados” (ambos ganham), e a jusante, com as entidades “beneficiárias” dos bens e com aquelas que as “beneficiam” (também ambas ganham).
    Escusado será dizer que, tirando os valores residuais que servirão para umas reportagens televisivas, nem um único esfomeado português terá direito a uma só garfada de arroz.

  2. É assim que a coisa se processa normalmente… o que é uma tristeza. Continuamos a dar lições a Angola – e ao mundo – neste particular. Não será por acaso que a personagem chico-esperto tem origem lusa…

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