A ironia do boicote à compra de combustíveis,

e a falácia da liberalização do preço dos ditos.

Nos últimos dias assistiu-se a uma movimentação dos consumidores no sentido de concertarem uma acção de boicote à aquisição de combustíveis em determinadas empresas revendedoras. Os blogues terão dado boa ajuda. Depois da onda passar (1,2,3,4) e da espuma começar a desfazer-se*, parece que o consenso se quedou na ideia de boicotar as aquisições de combustíveis na Galp durante período indeterminado (até ver, em português corrente).

boicote combustiveis

boicote galp

A iniciativa parece ser razoável, dado que os preços praticados por esta empresa são aparentemente tomados como referência por todas as outras. O Jardim no Deserto participa com muito gosto na divulgação desta campanha (até porque o seu autor já de há muito que tomou esta mesma decisão, para si e para todos aqueles que confiam nas suas escolhas), sem a atitude temerosa do JPG do Apdeites, mas também sem o excesso de optimismo que muitos outros aparentam ter. É preciso perceber que existem grandes limitações a esta acção.

Em primeiro lugar, é fundamental eliminar desta equação uma premissa falsa, ou, pelo menos, pouca esclarecida para grande conveniência do poder político. O preço dos combustíveis não é, nas actuais condições de mercado, um preço verdadeiramente livre (ou liberalizado, como dizem). Nem poderia ser. Porquê? Porque este é, nas condições actuais, um bem cujo consumo não pode ser substituído por outro. Isto torna rígido (ou inelástico) o crescimento da curva da procura, ou seja, qualquer variação no preço resulta numa variação nula ou quase nula na quantidade procurada.

O que as verdadeiras, mais sólidas, economias de tipo liberal (entre as quais não se conta, evidentemente, a portuguesa) têm vindo a procurar é tornar dinâmicos os preços do petróleo e seus subprodutos, recorrendo à armazenagem (as chamadas reservas estratégicas) e à tentativa de negociar no momento mais favorável – o que só é possível, ainda assim, se as quantidades oferecidas excederem num determinado momento as procuradas, coisa que parece já não ser possível.

Em segundo lugar, dada a inflexibilidade anteriormente referida e o facto da Galp deter a quase totalidade do fornecimento e distribuição ao retalho, os volumes totais comercializados pela empresa pouco variarão. Como a margem de comercialização do retalho é provavelmente a mais pequena das componentes do preço, tenho sérias dúvidas quanto à exactidão da estimativa das perdas diárias em 13 milhões de euros, avançada por alguns jornais.

*Assistiu-se a alguma discussão quanto à precedência da iniciativa nas caixas de comentários de alguns blogues.

3 responses to “A ironia do boicote à compra de combustíveis,

  1. “Temeroso” pode ter dois significados. Reconhecer o modus operandi típico (lembra-se de 1972?) e, mesmo assim, avançar contra as probabilidades (against all odds, como diria o velho Phil Collins) é de quem tem temor ou é temerário?

  2. Newropeans é o primeiro movimento político transeuropeu dedicado à democratização da União Europeia. Tenciona concorrer quando das próximas eleições europeias de 2009 em todos os Estados membros da U.E. Newropeans constitui uma frente política que pretende dar resposta à falta de liderança nos processos decisionais de cariz político, o que dia após dia se torna mais gritante e agrava o défice democrático da U.E. Newropeans prova que os cidadãos europeus não só pretendem assumir a responsabilidade do seu futuro comum em conjunto, como têm essa capacidade.
    Venha descobrir mais acerca de nós!
    http://www.newropeans.eu/spip.php?rubrique=4&lang=pt

  3. Essa da elasticidade é o que eu queria dizer, mas como não sou economista digo que estamos viciados no petróleo (esta frase é de Bush).

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